Clubes europeus perdem espaço para franquias dos EUA, clubes europeus ficam à margem do boom que valoriza NFL e NBA em múltiplos recordes

O mercado global de investimentos em esportes vive uma divisão clara, com as franquias norte-americanas atraindo grandes somas e os clubes europeus ficando à margem dessa corrida por valor.

O crescimento nos Estados Unidos tem levado a valuations recordes na NFL e na NBA, enquanto os principais clubes de futebol da Europa apresentam múltiplos muito mais baixos e maior volatilidade operacional.

O cenário e os números vieram à tona em apurações recentes, conforme informação divulgada pela Sportico e pela Uefa.

Por que investidores preferem o modelo norte-americano

Investidores citam a previsibilidade das receitas nos EUA, a estrutura de ligas fechadas, e o compartilhamento igualitário da maior parte dos rendimentos, incluindo contratos de TV, como fatores decisivos.

Em palavras traduzidas de Doc O’Connor, cofundador da Arctos Partners, “Nos Estados Unidos, existe um crescimento muito previsível, duradouro e sustentável”, e “O ambiente no futebol europeu é muito, muito diferente das ligas norte-americanas”.

John Lambros, da Houlihan Lokey, também destacou, traduzido, “A organização, a estrutura e as oportunidades de compartilhamento de receita das ligas nos Estados Unidos são muito diferentes em comparação com qualquer outro lugar do mundo”.

Exemplos concretos e dados que ilustram a disparidade

Operações recentes mostram a diferença de avaliação. Em setembro, o Sixth Street e Dean Metropoulos compraram 8% do New England Patriots, avaliando o time em mais de US$ 9 bilhões, R$ 49 bilhões, o equivalente a mais de 11 vezes a receita.

Mark Walter, da Guggenheim Partners, concluiu a compra da participação majoritária no Los Angeles Lakers, avaliando o time em US$ 10 bilhões, R$ 54,3 bilhões, o equivalente a cerca de 18 vezes a receita.

Segundo a Sportico, o valor médio de uma equipe da NBA subiu para 14,1 vezes a receita, ante 11,8 vezes em 2023, e as avaliações médias das equipes da NFL aumentaram para 10,2 vezes no período, após a liga permitir que empresas de private equity comprassem participações minoritárias em 2024.

Por outro lado, as avaliações médias dos principais times de futebol masculino concentrados na Europa estagnaram em apenas 4,2 vezes a receita, alimentando a percepção de menor atratividade.

Impacto financeiro e risco no futebol europeu

Os desafios do futebol europeu vão além do formato de competição. A Uefa informou que mais da metade dos times da primeira divisão europeia registraram prejuízos operacionais em 2024, com um prejuízo total de € 300 milhões, R$ 1,9 bilhão.

Os custos com transferências elevaram o prejuízo total antes dos impostos para € 1,2 bilhão, R$ 7,6 bilhões, enquanto a dívida combinada aumentou 10%, chegando a € 28,1 bilhões, R$ 179,5 bilhões.

O ambiente regulatório do futebol também é citado como fraco por alguns investidores. Na tradução de O’Connor, “O nível de regulamentação em nível de liga no futebol é muito menor, há problemas como o acesso e o rebaixamento, não há limites reais efetivos para o endividamento e nem limites efetivos para os gastos”.

O que muda e quais são as alternativas

Alguns investidores e donos defendem a adoção de medidas parecidas com tetos salariais para conter gastos com salários e transferências, buscando reduzir riscos e tornar clubes europeus mais atraentes para aportes externos.

Há sinais de negócios no futebol europeu, como o acordo da Apollo Global Management para comprar participação majoritária no Atlético de Madrid por um valor entre € 2 bilhões, R$ 12,8 bilhões, e € 2,5 bilhões, R$ 16 bilhões, em 2025, cujo limite inferior implica uma avaliação de 4,9 vezes a receita de 2024.

Por fim, a diferença nos mercados de direitos de mídia amplia a separação. O último pacote da NBA elevou a receita anual de US$ 2,6 bilhões para US$ 6,9 bilhões, aumentando a competição por transmissores e plataformas de streaming.

Enquanto isso, os direitos de mídia das principais ligas de futebol europeias mostram queda ou estagnação, e a Premier League conseguiu apenas um aumento de 4% em seus direitos no Reino Unido em comparação com a última renegociação há oito anos.

O resultado é evidente, clubes europeus enfrentam limitações estruturais e financeiras que reduzem o apelo para investidores em comparação com o modelo americano, e a discussão sobre reformas e tetos salariais tende a se intensificar nos próximos anos.

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