Petroleiros americanos se aproximam de terminais venezuelanos para carregar cargas retidas, numa tentativa de aliviar a pressão sobre reservas e evitar o colapso da produção venezuelana, segundo dados
Aproximadamente uma dúzia de petroleiros fretados por empresas americanas estão navegando rumo à Venezuela ou já se encontram em seus portos, e podem começar a carregar petróleo nos próximos dias.
A movimentação visa escoar petróleo da Faixa do Orinoco que ficou retido devido ao bloqueio naval imposto pelos EUA, e tenta evitar o acúmulo em tanques precários que pressiona a produção local.
Conforme informação divulgada pela consultoria Kpler e por pessoas familiarizadas com o setor.
Chevron, licenças e negociações com autoridades
A Chevron, a principal petrolífera americana em atividade na Venezuela, está em conversas com a estatal PDVSA e com autoridades dos Estados Unidos para encaminhar parte do petróleo represado para refinarias nos EUA.
Fontes dizem que essas remessas poderiam aliviar a infraestrutura já deteriorada do país, e que a empresa conseguiu continuar exportando por meio de licenças especiais concedidas por Washington.
Executivos da Chevron, incluindo a diretora financeira Eimear Bonner, devem se reunir com Chris Wright, secretário de Energia dos EUA, na margem de uma conferência em Miami, para discutir a estratégia americana em relação à Venezuela.
O movimento ocorre depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado um bloqueio total e completo a navios sancionados, o que paralisou parte das exportações venezuelanas.
Riscos à produção e dados sobre armazenamento
Analistas alertam que, se o escoamento não for retomado, a Venezuela pode sofrer um colapso da produção venezuelana em curto prazo. A produção, que estava em cerca de 900 mil barris por dia, já caiu 8% desde o início do bloqueio, segundo a Kpler.
Fontes do setor estimam que a produção pode cair até um terço nas próximas quatro semanas, chegando a algo em torno de 600 mil barris por dia, caso o petróleo retido não consiga ser escoado.
O país já enfrenta limitação de diluentes, substância necessária para transportar o petróleo pesado da Faixa do Orinoco por oleodutos, e a falta desses insumos agrava o risco de interrupção.
Ao menos 16,7 milhões de barris estão em armazenamento flutuante em águas venezuelanas, e o armazenamento flutuante global do país cresceu 89% desde 10 de dezembro, alcançando 23,6 milhões de barris, mostram dados da Kpler.
Schreiner Parker, da consultoria Rystad Energy, alertou para a possibilidade de um “colapso de produção no curto prazo”, com o armazenamento flutuante também correndo o risco de atingir o limite.
Impacto político, economia e preços
O bloqueio americano tem motivação política, e o secretário de Estado Marco Rubio sinalizou que os EUA manterão as restrições até que as condições impostas por Washington sejam atendidas pelo governo provisório.
Analistas apontam que, se o embargo for mantido, ele pode se voltar contra os próprios interesses dos EUA ao pressionar os preços mundiais do petróleo, justamente num momento em que o governo americano busca ganhos para o setor.
Matt Smith, analista da Kpler, afirmou que “quanto mais tempo durar, maior será a desorganização nos mercados globais”, e que a extensão do embargo “parece ir na direção oposta do que [Trump] gostaria”, considerando a preocupação com os preços nas bombas.
Especialistas também lembram que recuperar a produção será difícil e caro, mesmo se o bloqueio for suspenso, por causa da infraestrutura enferrujada, da má gestão e da fuga de mão de obra qualificada.
Jason Bordoff, do Center on Global Energy Policy da Universidade Columbia, disse, traduzindo a observação feita: “A Venezuela já tem diante de si uma tarefa hercúlea para recuperar seu setor de petróleo”, e que interromper a produção só tornaria essa recuperação mais difícil.
O que vem a seguir
Nas próximas semanas, a atenção ficará sobre a capacidade de a Chevron e outras empresas negociarem autorizações adicionais, e sobre o ponto em que o armazenamento, tanto em terra quanto flutuante, atingirá sua capacidade máxima.
Se os petroleiros americanos conseguirem escoar volumes significativos, isso pode mitigar o risco imediato de um colapso, porém a recuperação sustentável dependerá de investimentos, acesso a diluentes e de esforços prolongados para reparar a indústria.
Enquanto isso, o mercado global acompanha os números de produção e os níveis de estoque, e governos e empresas decidem se adotarão medidas mais seletivas no bloqueio, permitindo, por exemplo, viagens de navios entre a Venezuela e os EUA.