Ativos podres do Besc abasteciam esquema de fraudes do Banco Master via fundos da Reag, lavagem de R$ 11,5 bilhões, venda da gestora à Arandu

Os fundos da gestora Reag compravam certificados físicos do extinto Besc, chamados de cártulas, e os lançavam como ativos de alto valor, embora esses papéis não tivessem liquidez real.

O método permitia que recursos saíssem de empréstimos do Banco Master e circulassem entre fundos, até chegar a veículos controlados por laranjas ligados ao grupo, segundo investigadores.

As informações foram relatadas à reportagem, e dão seguimento a apurações do Banco Central que resultaram em ações junto ao Ministério Público Federal, conforme informação divulgada pela Folha.

Como o esquema funcionava

O roteiro investigado começava com operações de crédito do Banco Master, em valores que podiam chegar a R$ 500 milhões, concedidas a empresas que integravam a rede de desvios.

Em vez de aplicar o dinheiro no empreendimento declarado, a empresa tomadora direcionava os recursos a fundos da Reag. No sistema do banco, a operação aparecia dentro dos limites exigidos pela legislação bancária, inclusive regras de Basileia.

O gestor do fundo da Reag comprava, por um preço muito acima do real, um ativo podre de baixa liquidez, registrando-o no patrimônio do fundo com valor supervalorizado.

O vendedor do ativo ficava com o montante elevado recebido, aplicava esse dinheiro em outro fundo, e os recursos circulavam de fundo em fundo até desembocar em veículos cujos titulares eram pessoas usadas como laranjas, ligadas ao grupo Master.

O papel das cártulas do Besc

As cártulas são certificados físicos que representavam ações do antigo Besc, banco incorporado pelo Banco do Brasil em 2008.

Investigadores afirmam que esses títulos “não valem nada”, mas eram adquiridos pelos fundos com valores supervalorizados, usados para inflar patrimônio e justificar saques e transferências entre fundos.

O problema, segundo a apuração, é que esses ativos não têm liquidez e não poderiam ser precificados da maneira como foram, gerando uma espécie de ciranda financeira dentro do ecossistema da Reag e do Master.

Medidas do Banco Central e números da denúncia

O Banco Central identificou indícios de fraude em negócios entre o Master e fundos sob gestão da Reag e acionou o Ministério Público Federal.

Na denúncia, o órgão regulador afirma que R$ 11,5 bilhões foram lavados por meio desses fundos, e pediu ao MPF o congelamento dos recursos.

Além disso, o BC relata que, diante de dificuldades de liquidez, o Master teria fabricado ativos falsos de crédito consignado, vendidos ao BRB, transações que somam R$ 12,2 bilhões, segundo a denúncia apresentada ao MPF.

Consequências, investigação e a venda da gestora

As operações denunciadas ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024, antes da venda de carteiras de crédito podres citada em outra denúncia que culminou na prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em novembro passado.

A Reag informou que foi vendida para a Arandu Investimentos em outubro, e que questionamentos sobre operações passadas devem ser respondidos pelo novo controlador. A Arandu foi procurada e não respondeu, e o Master também não se manifestou.

Investigadores ouvidos solicitaram que haja apuração rigorosa sobre a utilização de ativos sem liquidez, o papel das cártulas do Besc e a origem dos recursos, para garantir o bloqueio dos valores e responsabilizar os envolvidos.

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