Economia de Brumadinho Sente o Impacto do Fim do Auxílio Emergencial da Vale
Sete anos após o rompimento da barragem Córrego do Feijão, Brumadinho (MG) enfrenta um novo capítulo de incerteza econômica. O fim do Programa de Transferência de Renda (PTR), parte do acordo de reparação firmado entre a Vale e o Governo de Minas Gerais, gerou apreensão e impactou diretamente o comércio local.
O PTR, que previa o depósito de meio salário-mínimo por adulto atingido e valores menores para crianças e adolescentes, além de um salário-mínimo mensal para familiares de vítimas e moradores de áreas mais afetadas, chegou ao fim em outubro do ano passado. A interrupção, mesmo que temporária, já demonstra os efeitos da dependência de recursos externos na dinâmica econômica do município.
A situação levou a uma decisão judicial em novembro, que obrigou a retomada das transferências em caráter emergencial. No entanto, o período em que os pagamentos cessaram expôs a fragilidade financeira de muitos e a dependência do comércio local desses repasses, conforme relatos ouvidos pela reportagem.
Comércio Local Sofre Queda nas Vendas e Relata Dependência do Auxílio
A comerciante Vitória Cardoso dos Santos, proprietária de uma loja de cosméticos, testemunhou uma queda de até 60% em seu faturamento durante o período de interrupção do PTR. “A gente tem o sentimento de que as pessoas priorizaram o pagamento das dívidas quando viram que o auxílio acabou”, afirma.
Ela observa que, nos sete anos de atividade no setor comercial da cidade, os preços aumentaram em diversos segmentos após o início das transferências, evidenciando a forma como a cidade se tornou dependente desses recursos. Essa dependência também foi sentida por Rubens Rossi e Sueli Maria, donos de papelarias, cujas vendas caíram cerca de 40%.
O impacto do PTR na economia é claro para os comerciantes. A dificuldade em contratar funcionários e a proliferação de empresas familiares são outros reflexos observados. Contudo, uma fonte gerencial de uma rede varejista, que preferiu não se identificar, relatou que a procura por emprego não apresentou mudanças significativas durante a interrupção dos pagamentos.
Especialistas Alertam para Falta de Planejamento e Diversificação Econômica
O professor Bernardo Campolina, da UFMG, aponta a falta de planejamento do poder público como um fator crucial. “Uma parte importante da população passou a depender desses recursos, que acabam girando a economia local”, explica.
Ele ressalta que o município não conseguiu se planejar para atrair ou promover outras atividades econômicas além da mineração. Essa carência de diversificação torna Brumadinho vulnerável a eventuais cessamentos de programas de transferência de renda, como o PTR.
A Prefeitura de Brumadinho, em nota, afirma que está articulando políticas de diversificação econômica focadas em turismo, economia criativa e formação profissional. O objetivo é reduzir a dependência do auxílio e ampliar a circulação de renda no município.
Vale Destaca Investimentos em Capacitação e Acordo de Reparação
A diretora de reparação da Vale, Gleuza Jesué, afirma que a companhia investe desde 2019 em capacitação de mão de obra e melhoria de negócios locais. Sobre o PTR, a mineradora informou que já havia realizado pagamentos emergenciais de R$ 2,4 bilhões entre 2019 e 2021.
Após a assinatura do acordo, a Vale destinou R$ 4,4 bilhões ao programa, descrito como “solução definitiva para o pagamento emergencial”. A empresa reconhece a alta dos aluguéis, mas ressalta que incentiva o uso de mão de obra local e que as contratadas são responsáveis pelo alojamento de funcionários de fora.
Aumento nos Aluguéis Agrava Situação de Famílias
Outro reflexo da tragédia são os aluguéis, que sofreram um aumento expressivo. João Castro, proprietário de uma imobiliária, relata que a demanda por moradias cresceu com a procura de funcionários da Vale e de empresas terceirizadas envolvidas nas ações de reparação.
O preço do aluguel chegou a dobrar após o rompimento, e hoje está cerca de 50% acima do valor praticado até janeiro de 2019. “Famílias foram muito prejudicadas em função disso, principalmente as que não tiveram alteração na renda”, lamenta Castro.
A prefeitura busca inserir o município em programas de habitação social e facilitar o acesso a crédito para reformas, buscando alternativas para a questão habitacional. Nayara Porto, presidente da Avabrum, expressa a tristeza em ver o dinheiro da reparação sendo distribuído, pois o considera um “dinheiro de sangue” referente a 272 vidas perdidas, e defende que ele se torne um legado, algo que o PTR, em sua visão, não representa.