MotoGP em Goiânia: Chuvas causam danos na pista e testam plano de R$ 250 milhões; impacto econômico em xeque

MotoGP em Goiânia: Chuvas causam danos na pista e testam plano de R$ 250 milhões; impacto econômico em xeque

A tão aguardada volta do Brasil ao calendário da MotoGP, após mais de duas décadas, trouxe a Goiânia para o centro das atenções internacionais. No entanto, a semana de ajustes e aprendizado para a organização do evento foi marcada por chuvas intensas, que causaram transtornos e danos significativos na pista. Um buraco surgiu na reta principal, interrompendo parte das atividades, e alagamentos já haviam atrasado treinos na sexta-feira.

Esses imprevistos climáticos colocam sob escrutínio o substancial investimento público de R$ 250 milhões realizado pelo governo de Goiás para sediar a etapa. Enquanto a expectativa é de um impacto econômico de R$ 800 milhões, especialistas alertam para a dificuldade em medir retornos diretos e a possibilidade de premissas otimistas nos cálculos.

Apesar dos percalços, a corrida sprint foi realizada com atraso, e a programação principal segue com a corrida prevista para este domingo. O evento busca não apenas o espetáculo esportivo, mas também a visibilidade do estado e a atração de novos investimentos, em um cenário global competitivo por sediar grandes competições. Conforme informações divulgadas pelo governo de Goiás, os detalhes e desafios desta etapa estão sendo monitorados de perto.

Danos na pista e atrasos devido às chuvas

O alto volume de chuvas nos últimos dias provocou o surgimento de um buraco na reta principal do Autódromo Internacional Ayrton Senna, exigindo reparos emergenciais e interrompendo parte das atividades de sábado. Na sexta-feira, alagamentos no circuito já haviam causado atrasos em uma das sessões de treino, apesar do sistema de drenagem ter funcionado.

Tome Alfonso, responsável pela segurança da MotoGP, explicou que a depressão na pista foi causada pela movimentação do solo devido às fortes chuvas. A prioridade era o reparo para viabilizar a corrida sprint. A prova, marcada para as 15h, acabou começando com cerca de 1h20 de atraso.

O piloto brasileiro Diogo Moreira, um dos poucos a conhecer a pista, relatou dificuldades de adaptação e queda durante um treino, atribuindo parte disso às condições climáticas e à falta de ritmo. Ele também destacou que o traçado de alta velocidade oferece poucos pontos claros de ultrapassagem, aumentando o peso da estratégia.

Investimento milionário e projeções econômicas questionadas

A realização da etapa da MotoGP em Goiânia demandou um investimento público de R$ 250 milhões, sendo R$ 60 milhões destinados à reforma do autódromo. Os R$ 190 milhões restantes cobriram patrocínios e aquisição de equipamentos que integram a estrutura permanente do circuito. A modernização incluiu a reconstrução do paddock, atualização de arquibancadas, sala de imprensa, camarotes, nova torre de controle e centro médico, além da revitalização da pista de 3.825 metros.

A projeção de impacto econômico para o evento chega a R$ 800 milhões, englobando gastos diretos e efeitos indiretos em turismo, transporte e serviços. O governo de Goiás vê o evento como parte de uma estratégia para ampliar a visibilidade do estado e atrair investimentos.

Contudo, especialistas como Eduardo Corch, professor de marketing do Insper, pedem cautela. Ele afirma que “o investimento público dificilmente se paga pelo retorno direto. Ele se apoia em impactos indiretos, que são mais difíceis de medir e, na prática, muitas vezes inflados por premissas otimistas”. Corch também ressalta a necessidade de cuidado ao comparar com a F1, que opera em outro patamar.

José Sarkis Arakelian, consultor, aponta que o problema reside no modelo de cálculo, que combina efeitos diretos, indiretos e induzidos, dependendo de premissas que nem sempre se confirmam. “É comum haver contagem dupla e substituição de consumo local, por isso faz mais sentido ler esses valores como potencial, não como retorno assegurado.”

Legado e a busca por consolidação da MotoGP no Brasil

O retorno da MotoGP ao Brasil, após sua última passagem em 2004, carrega um peso simbólico importante. Goiânia tem um histórico com o mundial, tendo sediado etapas entre 1987 e 1989. A etapa atual retoma essa relação em um cenário mais competitivo globalmente por eventos esportivos.

Apesar dos desafios operacionais, como os causados pela chuva, o diretor esportivo da MotoGP, Carlos Ezpeleta, avaliou a etapa como positiva, destacando a boa resposta da cidade e o agrado do paddock com o ambiente. Ele reconheceu, porém, a necessidade de ajustes, comuns em um primeiro ano, e a tendência de evolução do evento nas próximas edições.

O impacto do evento no curto prazo é visível, com alta ocupação hoteleira, embora ainda restem vagas. O legado, no entanto, não é automático e depende do uso contínuo da infraestrutura e de estratégias para atrair novos fluxos de turismo e negócios, como aponta Corch.

A experiência de ver a arquibancada cheia, como destacou Diogo Moreira, é um fator motivador, especialmente após tanto tempo sem a categoria no país. O turismo esportivo também se beneficia, com a venda de ingressos e pacotes que incluem transporte e hospedagem, atendendo a uma demanda crescente por experiências completas.

A programação do fim de semana incluiu qualificações e a corrida sprint no sábado, com a corrida principal prevista para domingo às 15h, transmitida pela ESPN4, Disney+ e Band.

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