Um Ano de Tarifas: “Dia da Libertação” Decepciona Indústrias Americanas e Gera Caos Burocrático

Um ano após o “Dia da Libertação”, as fábricas americanas não viram o retorno prometido, e a guerra comercial de Trump se mostra um fardo inesperado para o setor industrial.

Em abril do ano passado, o presidente Donald Trump anunciou o “Dia da Libertação”, com a meta ambiciosa de elevar as tarifas a níveis históricos para revitalizar a indústria dos Estados Unidos. A promessa era clara: “empregos e fábricas voltarão rugindo para o nosso país”.

No entanto, um ano depois, os dados e relatos de empresários pintam um quadro diferente. Em vez de um rugido, o setor industrial tem emitido gemidos, e a incerteza gerada pelas tarifas tem sido um obstáculo constante, mais do que um triunfo.

A Casa Branca argumenta que os custos impostos pelas tarifas são necessários para resgatar a indústria americana de décadas de declínio. Contudo, a análise de um ano de implementação revela um cenário complexo, com efeitos mistos e desafios significativos para os fabricantes. As informações são baseadas em análises recentes e declarações de representantes do setor industrial.

Impacto no Emprego e na Produção Industrial: Um Balanço Frustrante

Desde a posse de Trump, as indústrias dos EUA eliminaram cerca de 100 mil postos de trabalho, enquanto o restante da economia do país ganhou 300 mil empregos. Essa disparidade levanta questionamentos sobre a eficácia das tarifas em impulsionar o emprego industrial.

O efeito na produção industrial real foi igualmente modesto. O índice de gerentes de compras, uma pesquisa fundamental sobre o setor, sugere que a indústria passou a maior parte do último ano em recessão, com uma melhora tímida nos meses recentes. A produção de bens manufaturados também apresentou um leve aumento, retornando apenas aos níveis de anos anteriores.

Parte desse modesto avanço é atribuído a setores específicos como aeroespacial, computadores e eletrônicos (impulsionados pela Lei CHIPS) e farmacêutico (beneficiado pelo boom de medicamentos para obesidade), e não a um renascimento generalizado da indústria provocado pelas tarifas.

Caos Burocrático e Instabilidade: O Preço da Conformidade

Para muitos industriais, a guerra comercial se tornou um obstáculo a ser contornado, e não um motivo de celebração. A pesquisa do Instituto para Gestão da Oferta (ISM) revela que a maioria dos comentários de industriários menciona as tarifas de forma negativa, com alguns relatos descrevendo a situação como um “inferno burocrático” devido à rotatividade, instabilidade e excesso de burocracia.

Julie Robbins, proprietária da EarthQuaker Devices, estima que a conformidade com as tarifas custou à sua pequena empresa cerca de 400 horas de trabalho no último ano. “Cada hora gasta navegando nisso é tempo que não podemos dedicar a coisas úteis para fazer o negócio crescer”, lamentou Robbins.

A instabilidade das tarifas também transformou o planejamento de contratações, gastos e investimentos em um pesadelo. Medidas de incerteza política econômica atingiram recordes históricos após o “Dia da Libertação”, superando até mesmo os primeiros meses da pandemia de coronavírus. Essa imprevisibilidade gera “uma raiva particular quando o governo faz algo que os prejudica diretamente”, segundo Ethan Karp, da MAGNET.

Tarifas sobre Insumos: Um Dilema para Exportadores

Um segundo grande problema reside nas tarifas sobre insumos. Mesmo fabricantes que produzem a maior parte de seus produtos nos EUA dependem da importação de componentes. Robbins, por exemplo, importa 94% das matérias-primas para seus pedais de guitarra.

As tarifas sobre insumos, especialmente sobre o aço, têm sido particularmente prejudiciais para exportadores, que competem com fábricas estrangeiras isentas dessas taxas. Remover essas tarifas, no entanto, minaria a lógica da guerra comercial de tornar os EUA mais autossuficientes.

A abordagem do governo de oferecer isenções para setores mais influentes, como o de tecnologia, apenas enfraquece ainda mais a eficácia geral das tarifas, desincentivando a relocalização de fábricas.

Um Futuro Incerto para a Indústria Americana

A relocalização de fábricas é um processo que pode levar de cinco a dez anos para ser planejado e implementado. Projetos que hoje fazem sentido financeiro podem se tornar um desperdício de dinheiro se as tarifas forem eliminadas por um futuro governo. Atualmente, apenas 9% dos fabricantes de Ohio pesquisados pela MAGNET estão relocalizando, um aumento modesto em relação a anos anteriores.

A incerteza sobre as tarifas futuras, incluindo a expiração das tarifas provisórias de 10% em julho e a dependência de um complexo processo de tarifas específicas por país e setor, adiciona mais uma camada de instabilidade. A possibilidade de um futuro governo com políticas protecionistas diferentes agrava ainda mais o cenário.

No fim das contas, um ano após o “Dia da Libertação”, as tarifas parecem ter poucos aliados, mesmo entre os industriais. As isenções concedidas e a complexidade do sistema reduzem as chances de um renascimento industrial genuíno impulsionado pelas políticas atuais, deixando o futuro das fábricas americanas em um estado de suspense.

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