A instabilidade no Estreito de Hormuz gera grande preocupação para o agronegócio brasileiro, um setor vital para a economia do país.
O vaivém nas decisões sobre a abertura e fechamento do estratégico Estreito de Hormuz, um corredor marítimo essencial, lança uma sombra de incerteza sobre o agronegócio brasileiro. A região é uma rota prioritária tanto para a exportação de produtos quanto para a importação de insumos indispensáveis para a produção agrícola nacional.
A situação atual, marcada por tensões geopolíticas, tem levado operadores logísticos a implementar uma “taxa de guerra”, elevando os custos para desviar navios por rotas alternativas. Essa medida, embora necessária para a segurança, representa um obstáculo adicional para as empresas brasileiras que dependem dessa via para manter suas operações e honrar compromissos.
O receio é palpável em relação à próxima safra, com a imprevisibilidade sobre o fluxo de fertilizantes e outros insumos cruciais para a produção. Conforme informação divulgada pelas fontes, o agronegócio brasileiro exportou o equivalente a US$ 169,2 bilhões em 2025, com as exportações para o Oriente Médio totalizando US$ 12,4 bilhões, 7,4% do total. A continuidade das restrições em Hormuz dificulta a manutenção desses volumes, segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA.
Custos Elevados e Rotas Alternativas: O Novo Cenário Logístico
O principal prejuízo para as companhias brasileiras reside no aumento de custos e no esforço logístico para viabilizar as entregas por rotas alternativas. Santin destaca que, apesar dos desafios, as vendas têm se mantido, mas a situação é “complicada”. Para contornar o bloqueio, as commodities agrícolas têm sido escoadas pelo Mar Vermelho, Canal de Suez e Estreito de Bab el-Mandeb, rotas consideradas de alto risco devido a ataques de rebeldes houthis. Uma alternativa ainda mais longa é o desvio pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul.
Hormuz: Um Ponto Crítico para Insumos Agrícolas
O Estreito de Hormuz não é apenas uma saída para produtos brasileiros, mas também uma entrada vital para insumos. O Brasil, como um dos maiores importadores de fertilizantes do mundo, depende crucialmente dessa via. Segundo dados apresentados, o estreito escoa 40% das exportações mundiais de ureia, 30% de amônia, 24% de fosfatos e 50% de enxofre. Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper, ressalta que a imprevisibilidade sobre o futuro do estreito adiciona insegurança para a próxima safra.
“A gente está numa situação muito complicada pelo lado dos fertilizantes. Esse é o principal problema hoje”, afirma Jank. Ele explica que, para a safra que começa em setembro, o fertilizante, especialmente os produtos à base de nitrogênio e enxofre, precisa chegar com antecedência, e a abertura do estreito é fundamental para esse abastecimento.
Impacto Direto nas Empresas e no Consumidor
Empresas como a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, já sentem os efeitos. O tempo médio de entrega na região do Oriente Médio saltou de 40 para mais de 60 dias, um aumento de pelo menos 50%. Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da BRF, detalha que há um aumento de frete devido à “taxa de guerra”, além de custos adicionais com logística terrestre e armazenagem.
A dependência do Oriente Médio e da China para a exportação de produtos como carne de frango e milho, e a dependência do Brasil de fertilizantes que passam por Hormuz, criam um cenário complexo. A instabilidade na região pode levar ao desabastecimento de insumos, impactando diretamente o aumento de preços dos alimentos no mercado interno no segundo semestre do ano.