O Banco Central solicitou ao Ministério Público Federal o congelamento de R$ 11,5 bilhões em fundos de investimento administrados pela Reag Trust, por suspeitas de que os recursos tenham sido usados em operações fraudulentas ligadas ao banco Master.
Segundo investigadores, o montante teria passado por uma cadeia de fundos até chegar a titulares que seriam laranjas vinculados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, o que motivou a comunicação formal ao MPF.
As informações sobre o pedido e a investigação vieram à tona durante apurações do Banco Central, que também informou o Tribunal de Contas da União sobre irregularidades na gestão de risco do banco, conforme informação divulgada pela Folha.
Como teria funcionado o esquema
O mecanismo descrito pelos investigadores envolve empréstimos do Master a empresas que, em vez de aplicar os recursos no negócio declarado, direcionavam o dinheiro para fundos da Reag. Em seguida, gestores dos fundos compravam ativos com baixa liquidez por preços muito acima do valor real, registrando ativos supervalorizados no patrimônio dos fundos.
Na ponta das empresas tomadoras, o balanço apparentemente casava o empréstimo com um investimento no fundo, enquanto o vendedor do ativo embolsava lucro e repassava recursos a outros fundos, criando uma cadeia que terminaria em fundos controlados por pessoas de fachada ligadas ao grupo Master.
Um investigador explicou à reportagem que esse mecanismo permitiu ao Master afastar dinheiro, “de dentro para fora do banco”, para ganhar graus de liberdade sobre o uso dos recursos.
Fundos e valores citados
Entre os fundos citados na comunicação ao MPF, segundo a reportagem, estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos administrados pela Reag.
O BC registrou operações estruturadas no montante de R$ 11,5 bilhões que, segundo o regulador, revelaram “inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez, e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, que se encontram em fase de instrução”, diz o documento enviado pelo BC ao TCU.
Ação do Banco Central e cronologia
A comunicação ao MPF com a solicitação de congelamento ocorreu na véspera da decretação da liquidação do banco Master, anunciada em 18 de novembro. No documento ao TCU, o BC detalha que em 17 de novembro de 2025 houve nova comunicação ao MPF por indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta, referindo-se às operações de R$ 11,5 bilhões.
Além dessa segunda denúncia, o BC já havia apontado outra irregularidade, a revenda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de créditos inexistentes ao BRB, investigação que levou à prisão de Vorcaro em novembro passado, seguida de liberdade dias depois.
Declarações e implicações
A Reag negou, em nota, elo com o PCC e afirmou não ter tido acesso ao relatório do BC, por isso não respondeu sobre a relação com o Master, segundo a reportagem. A Reag também foi alvo da operação Carbono Oculto, que mira relações entre o setor de combustíveis, organizações criminosas e empresas financeiras.
O processo em curso no TCU avalia falhas e omissões do Banco Central no caso Master, e, conforme a apuração, pode ter impacto nas defesas de envolvidos, inclusive em eventual responsabilização penal e na condução de investigações futuras.
As apurações seguem em andamento, e o pedido de congelamento de ativos é uma medida cautelar para preservar recursos enquanto o MPF analisa as evidências apresentadas pelo BC.