Augusto Lima, o empresário por trás do Credcesta, é alvo de investigação por suspeitas de fraudes financeiras, revelando uma complexa teia de conexões políticas e empresariais.
Em novembro de 2023, Augusto Lima, conhecido como Guga, celebrava o lançamento do Instituto Terra Firme em um evento luxuoso em Salvador, Bahia. A cerimônia contou com a presença de autoridades políticas, incluindo o governador Jerônimo Rodrigues e o prefeito Bruno Reis, além de figuras importantes do meio empresarial e artístico. O evento marcava o prestígio do banqueiro, impulsionado pelo sucesso de sua sociedade no Banco Master e na criação do Credcesta.
A trajetória de Augusto Lima é marcada por uma ascensão meteórica. Em menos de uma década, desde a criação do Credcesta em 2018, ele expandiu seus negócios de crédito consignado por 24 estados e 176 municípios. Contudo, em novembro de 2025, Lima foi preso na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes em carteiras de crédito negociadas pelo Master com o BRB (Banco Regional de Brasília). Atualmente em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, Lima foi convocado a depor.
A reconstituição dos fatos, baseada em documentos e relatos de pessoas próximas, aponta para um caminho que envolve estruturas empresariais opacas, sociedades complexas e articulações políticas. Conforme apurado, Augusto Lima utilizou diversos fundos em seus empreendimentos, estabelecendo fortes laços com a Reag, gestora de recursos que foi alvo da Operação Carbono Oculto por suspeitas de ligação com o PCC e que foi liquidada pelo Banco Central. A PKL One, empresa dona do Credcesta, recebeu um aumento de capital de um fundo gerido pela WNT, que também foi citada em desdobramentos da Operação Compliance Zero. A Folha de S.Paulo detalha essa intrincada rede de negócios e alianças.
A Origem do Império: Do Carnaval ao Crédito Consignado
Nascido em Salvador, Augusto Lima iniciou sua carreira no mercado financeiro após trabalhar com venda de abadás no Carnaval. Fundou a Terra Firme da Bahia em 2001, atuando como correspondente de instituições financeiras. Posteriormente, expandiu seus negócios e contribuiu para a criação de associações de servidores públicos, como a Asteba e a Asseba, que ofereciam serviços financeiros.
A aproximação com o governo do PT na Bahia ocorreu a partir de 2017. Lima teria apresentado a Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico, uma solução para viabilizar a privatização da Ebal, empresa estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo. A proposta envolvia a agregação de benefícios financeiros ao cartão de compras, tornando o negócio mais atrativo. A Ebal foi arrematada pela NGV SPE Empreendimentos e Participações, empresa que, posteriormente, transferiu os direitos de exploração comercial do cartão para a PKL One, empresa ligada a Lima.
A Expansão do Credcesta e as Conexões Políticas
A parceria entre a PKL One e o Banco Master, na época Banco Máxima, foi fundamental para a consolidação do Credcesta. A união da força política de Augusto Lima e Daniel Vorcaro, sócio do Master, impulsionou a expansão do produto pelo país, com taxas de juros elevadas. O Credcesta obteve exclusividade no governo da Bahia por 15 anos, com taxas de juros de 4,7%, elevando o comprometimento de renda dos servidores a patamares significativos.
O alcance do Credcesta se estendeu a outros estados, como Rio de Janeiro, sob o governo de Claudio Castro, onde foi autorizada margem de 20% de comprometimento de renda com juros de 5,5%. O Master também obteve autorização para operar com o consignado do INSS. Lima, que entrou na sociedade do Master em maio de 2020, manteve forte controle sobre a operação do Credcesta, sendo descrito como ciumento de sua criação.
Rede de Influência e o Círculo Político de Lima
O círculo de amizades de Augusto Lima se expandiu para a direita política, aproximando-o de figuras como João Roma, ex-ministro de Bolsonaro, o senador Ciro Nogueira e o presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Através dessas conexões, Lima conheceu Flávia Péres, deputada federal e ex-ministra de Bolsonaro, com quem se casou em janeiro de 2024. O evento, realizado na Ilha dos Frades, teve restrições de postagem em redes sociais.
Lima também cultivou relações com políticos como o governador Jerônimo Rodrigues e o prefeito Bruno Reis, que participaram de eventos em sua homenagem. Em dezembro de 2025, dias antes de sua prisão, um helicóptero de Lima foi utilizado por João Roma, ACM Neto e Bruno Reis em uma viagem pelo interior da Bahia, evidenciando a força de sua rede de conexões políticas. Enquanto alguns associados de Lima parecem distanciados, seus amigos mantêm a lealdade.
Investigações e Estruturas Empresariais Complexas
A Operação Compliance Zero investiga a suspeita de fraudes em carteiras de crédito que o Banco Master vendeu ao BRB. Documentos e relatos indicam que Augusto Lima utilizou estruturas empresariais opacas e sociedades complexas para seus negócios. A PKL One, empresa dona do Credcesta, recebeu aportes de fundos ligados à Reag, gestora de recursos que foi alvo de investigação por supostas ligações com o PCC.
A conexão com a Reag se estende a outros negócios de Lima, como a Ilha do Topete, na Bahia, cujo direito de uso está em nome de uma empresa ligada a um fundo gerido pela Reag. Lima também declarou ganhos milionários em operações envolvendo ações de empresas e cotas de fundos que receberam investimentos de entidades sob investigação. A Folha de S.Paulo detalha essa intrincada rede de negócios e alianças.
