A ascensão de novos gastos que redefinem o orçamento familiar brasileiro.
O orçamento doméstico do brasileiro tem passado por mudanças significativas nos últimos anos. Enquanto o ganho real na renda apresentou um crescimento modesto, a oferta de novos serviços e produtos explodiu, competindo diretamente com despesas essenciais como alimentação, bebidas, higiene e limpeza. Essa reconfiguração de prioridades está alterando a forma como as famílias planejam suas compras no supermercado.
A NielsenIQ Brasil revela que o consumo de bens de giro rápido (FMCG), que engloba esses itens básicos, já representa uma fatia menor do orçamento familiar. Em 2023, essa categoria correspondia a 23,5% do total, e em 2024, caiu para 21,9%. A tendência, segundo especialistas, é de uma retração ainda mais acentuada.
Essa nova realidade é impulsionada, em grande parte, pela popularização de duas categorias de produtos e serviços: as chamadas canetas emagrecedoras e as apostas online (bets). Ambas já conquistaram espaço em pelo menos um a cada quatro domicílios no país, forçando uma escolha sobre onde o dinheiro será investido.
O impacto das canetas emagrecedoras e das apostas no bolso do consumidor
Dados inéditos de pesquisas da NielsenIQ indicam que as apostas online já estão presentes em 26% dos lares brasileiros, com maior incidência nas classes D e E. Por outro lado, as canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, aparecem em 25% a 30% dos domicílios, seja em suas versões originais, genéricas ou manipuladas. O custo desses tratamentos, que podem ultrapassar R$ 1.000 mensais, representa um peso considerável no orçamento.
A NielsenIQ monitora essas tendências através do seu Painel de Lares e do Retail Index, que acompanha as vendas no varejo. Durante a última Black Friday, por exemplo, três dos cinco itens mais vendidos em farmácias foram canetas emagrecedoras, evidenciando a demanda crescente por esses produtos, mesmo com seus altos custos.
Gabriel Fagundes, diretor de insights da NielsenIQ Brasil, explica que o consumo das apostas online, especialmente nas classes D e E, é visto como uma oportunidade de renda extra, e não apenas entretenimento. “O consumidor fala claramente que, para manter um nível de apostas diário, deixa de comprar alimentos e bebidas, na tentativa de obter uma renda extra”, afirma.
Diversificação de gastos e a busca por redefinir prioridades
O cenário de consumo no Brasil tem se tornado cada vez mais complexo. A inclusão financeira, com o aumento expressivo de contas bancárias, permitiu ao consumidor redefinir suas prioridades e buscar produtos de maior valor agregado, como eletrônicos e eletrodomésticos. Isso, somado a crises financeiras, pandemia e inflação, tem levado a um verdadeiro malabarismo para fechar as contas do mês.
A inflação nos alimentos, que aumentou 12% no último ano, contrastando com uma redução de 0,6% no consumo, ilustra a dificuldade. Os brasileiros gastam mais para comprar menos itens, o que exige uma readequação nas estratégias de compra.
Fagundes aponta que o consumidor moderno não segue mais um padrão linear de compras. Ele diversifica os pontos de venda, frequenta farmácias com mais regularidade e, embora cauteloso com preços, ainda busca por itens de indulgência. Essa estratégia leva à escolha de marcas mais baratas para produtos básicos, como arroz e feijão, mas a manutenção de produtos de maior valor agregado, como tratamentos capilares ou cremes.
O fenômeno das marcas premium de baixo preço e embalagens menores
Essa busca por manter preferências, mesmo com restrições orçamentárias, resulta em um aumento do consumo de marcas premium de baixo preço e, paradoxalmente, de produtos de médio preço, que perdem demanda. O consumidor elege categorias onde pode economizar para poder investir em outras que considera essenciais ou desejáveis.
Quando a conta ainda não fecha, a opção recai sobre embalagens menores. “Mesmo que ele saiba que aquela compra não compensa em relação a uma embalagem maior, ele leva, porque é o que dá para pagar no dia”, conclui Fagundes. Essa dinâmica reflete a necessidade de adaptação a um cenário econômico desafiador, onde cada real conta para manter um certo padrão de vida e satisfazer desejos.
