Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800 metros, expressou forte desaprovação à decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de restabelecer testes de “feminilidade” para os Jogos de Los Angeles em 2028. Ela classificou a medida como uma “falta de respeito às mulheres”, especialmente considerando que a nova presidente do COI, Kirsty Coventry, é uma mulher. Semenya, que é hiperandrogênica, vê a decisão como um ataque direto a atletas como ela, que já enfrentam estigma e discriminação no esporte.
A atleta sul-africana lamentou que a medida tenha sido implementada sob a liderança de Kirsty Coventry, a primeira mulher a ocupar a presidência do COI. Semenya destacou a dor pessoal que essa decisão causa, especialmente para mulheres africanas e do Sul Global, que podem ser desproporcionalmente afetadas por tais testes.
O COI anunciou na última quinta-feira (26) que, a partir de 2028, a participação nas competições olímpicas femininas será restrita a “pessoas de sexo biológico feminino”, excluindo atletas transgênero e muitas atletas intersexuais. A decisão marca um retorno a práticas controversas que o próprio COI abandonou anteriormente.
A entidade já utilizou testes cromossômicos de feminilidade entre 1968 e os Jogos de Atlanta em 1996. No entanto, esses testes foram descontinuados em 1999 devido a questionamentos da comunidade científica sobre sua validade e pressão de sua própria comissão de atletas. Semenya relembrou que a prática “terminou em fracasso” e questionou a necessidade de atletas serem submetidas a tais testes para provar sua identidade feminina.
“É como se agora tivéssemos que provar que nós, mulheres, merecemos participar do esporte. É uma falta de respeito às mulheres”, enfatizou Semenya, tornando-se um símbolo da luta por direitos para atletas hiperandrogênicas.
A decisão do COI parece alinhar-se com a postura de figuras políticas como o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defende a exclusão de atletas transgênero do esporte feminino. No entanto, a medida tem gerado críticas de cientistas, relatores da ONU, juristas e organizações de direitos humanos, que alertam para o retrocesso em termos de inclusão e direitos.
A ministra de Esportes francesa, Marina Ferrari, também se posicionou contra a reintrodução dos testes de feminilidade, classificando-a como um “retrocesso”. A questão já havia ganhado destaque nos Jogos de Paris-24, com atletas como a argelina Imane Khelif e a taiwanesa Lin Yu-ting sendo alvo de acusações sobre sua identidade de gênero. Imane Khelif admitiu recentemente ser portadora natural do gene SRY, associado à masculinidade, e ter passado por tratamento hormonal, afirmando não se opor aos testes de gênero para participar em futuras competições.
Testes de “Feminilidade” e a História do COI
O COI baseará sua nova política no critério de ausência do gene SRY, um indicador genético tradicionalmente associado ao sexo masculino. Essa medida visa definir estritamente quem pode competir na categoria feminina, gerando controvérsias sobre a definição de “sexo biológico” e a inclusão de diferentes identidades.
A reintrodução desses testes ocorre em um momento de intensos debates sobre a participação de atletas transgênero e intersexuais em competições esportivas. A decisão do COI busca, aparentemente, apaziguar setores conservadores, mas abre uma nova frente de conflito com ativistas e especialistas em direitos humanos.
O Legado de Caster Semenya e a Luta por Inclusão
Caster Semenya se tornou uma figura central na defesa dos direitos de atletas hiperandrogênicas desde seu primeiro título mundial em 2009. Sua batalha, que se estendeu das pistas aos tribunais, expôs as complexidades e os preconceitos enfrentados por mulheres com variações nas características sexuais.
A atleta questiona a necessidade de provar sua identidade feminina para competir, ressaltando que a medida impõe um ônus desnecessário e desrespeitoso às mulheres. A sua voz se soma a um coro crescente de críticas contra o que muitos consideram um passo atrás na evolução do esporte em termos de inclusão e igualdade.
