Comércio Brasil Venezuela enfraquece há dez anos, exportações caem a R$ 1,196 bilhão em 2024, e possibilidade de ataque dos EUA aumenta riscos para preços do petróleo, fretes e seguros
O fluxo comercial entre Brasil e Venezuela vem perdendo importância desde meados da década passada, com queda marcada nas vendas brasileiras ao vizinho, e sinais de que a relação econômica dificilmente recuperará o patamar anterior sem mudanças políticas ou econômicas profundas.
Em 2024, as exportações brasileiras para a Venezuela somaram R$ 1,196 bilhão, um recuo de 59% em relação a 2015, quando haviam atingido R$ 2,9 bilhões.
As importações brasileiras da Venezuela também caíram, ficando em R$ 422 milhões em 2024, contra R$ 679 milhões em 2015, uma queda de 38%, conforme informação divulgada pelo sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Queda nas vendas e peso reduzido da Venezuela nas exportações brasileiras
O resultado de 2024 coloca a Venezuela com participação pequena nas vendas externas brasileiras, equivalente a 0,4% do total exportado pelo Brasil naquele ano. Em comparação, as exportações brasileiras para a Venezuela foram equivalentes a um terço do que a Colômbia comprou de produtos brasileiros, que somaram R$ 3,2 bilhões em 2024.
Dados do Comex Stat mostram que a pauta de comércio encolheu em valor e em diversidade, e que produtos que antes eram relevantes, como a carne bovina até 2016, tiveram forte retração depois daquele ano.
Pauta de produtos e mudanças recentes nas compras venezuelanas
Em 2024, açúcares e melaços, alimentos e milho foram os principais itens adquiridos pela Venezuela, concentrando mais de 40% das exportações brasileiras para o país.
No acumulado de 2025 até novembro, houve mudança na composição, com máquinas agrícolas, exceto tratores, ganhando espaço nas vendas brasileiras para a Venezuela, representando 10,6% das exportações, ficando atrás apenas de açúcares, melaço e outros produtos comestíveis.
Historicamente, a Venezuela importou volumes maiores de produtos agropecuários, ao ponto de, em 2014, ter comprado o equivalente a US$ 2,9 bilhões nesse setor, segundo os registros consultados.
Consequências econômicas de eventuais ataques e análise do setor
Especialistas e associações do setor alertam que um ataque externo à Venezuela tende a repercutir sobre preços do petróleo, fretes marítimos e seguros, fatores que afetariam toda a cadeia do óleo e gás no Brasil.
O Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, IBP, que reúne 220 empresas do setor, incluindo refinarias, centrais petroquímicas, empresas de logística e a Petrobras, destacou que os impactos podem ser sentidos em diferentes elos da atividade, em especial nos custos de transporte e de seguro.
Politicamente, o episódio também provocou posicionamentos públicos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou os ataques dos Estados Unidos à Venezuela e escreveu que, em sua avaliação, “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”.
Integração regional e infraestrutura limitada
A Venezuela integra o programa Rotas de Integração Sul Americana, e a única ligação rodoviária brasileira contemplada pelo plano, por Roraima, é a BR-174, que no território venezuelano é chamada de Troncal-10. O chamado PAC da Integração busca ampliar corredores comerciais e agilizar o escoamento de produtos via Pacífico, mas a crise econômica venezuelana dos últimos anos reduziu a relevância do fluxo comercial bilateral, segundo fontes ligadas ao Ministério do Planejamento e Orçamento.
A Folha procurou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e não obteve respostas, e a pasta de Minas e Energia também foi consultada, sem retorno até a publicação desta reportagem.
Com o comércio já em patamar fragilizado, eventuais choques geopolíticos na Venezuela prometem, portanto, atuar sobre um mercado com menor volume de negócios com o Brasil, mas capaz de gerar efeitos nos preços globais de energia e nos custos logísticos, o que pode reverberar para exportadores e importadores brasileiros.