Guadalajara e o Fantasma do Narco: Ameaça à Copa do Mundo de 2026
A pouco mais de cem dias para o início da Copa do Mundo de 2026, Guadalajara, uma das sedes mexicanas do evento, se vê mergulhada em uma onda de violência que reacende os temores sobre a segurança no país. A região metropolitana de Jalisco, que já ostenta o triste título de ter o maior número de desaparecidos no México, está sob os holofotes após uma reação violenta do poderoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
A escalada de violência ocorreu após a morte de um líder do cartel pelas mãos do Exército, em uma operação para sua captura. A cidade, que se preparava para receber o torneio com tecnologia de ponta, incluindo drones e inteligência artificial para vigilância, agora lida com bloqueios de estradas, incêndios de veículos e ataques a estabelecimentos comerciais, pintando um cenário de incerteza para o futuro próximo.
Essa situação preocupante levanta sérias questões sobre a capacidade de garantir a tranquilidade e a segurança para atletas, equipes e fãs que visitarão o México. Conforme informações divulgadas, o governo de Jalisco vinha investindo em tecnologia avançada para proteger a Copa, mas a demonstração de força do CJNG abala a confiança e ameaça a festa do futebol mundial.
Violência Choca Guadalajara e Suspende Jogos
No domingo, 22, a resposta do CJNG à morte de seu líder, Nemesio “El Mencho” Oseguera, foi brutal e generalizada. Bloqueios de estradas, incêndios de veículos, ataques a postos de gasolina, bancos e comércios espalharam o caos por Guadalajara e outras partes do país. A onda de violência foi tão intensa que forçou a suspensão de duas partidas de futebol em Jalisco e de outra em Querétaro, no centro do México.
As ruas de Guadalajara amanheceram praticamente desertas na segunda-feira, com muitos comércios fechados e aulas suspensas em Jalisco e em outros estados. A demonstração de força do cartel evidenciou sua vasta capacidade de mobilização e organização, deixando os moradores em estado de alerta e apreensão.
Jalisco: O Epicentro da Crise de Desaparecimentos
Jalisco não é apenas um palco para a violência do narcotráfico, mas também o estado com o maior número de desaparecidos no México, registrando 12.575 pessoas. Mais da metade desses casos provém da própria Guadalajara e sua região metropolitana, a segunda maior cidade do país. Esse flagelo social adiciona uma camada de tragédia à preparação para a Copa do Mundo.
“Acho que não há nada a comemorar, me parece muito grotesco”, desabafou Carmen Ponce, 26 anos, que busca seu irmão desaparecido em 2020. Ela relata a dura realidade de famílias que, em meio à busca por entes queridos, encontram centenas de valas clandestinas com restos mortais. “O país comemora gols enquanto nós estamos em campo buscando”, lamenta.
Recrutamento Forçado e a Busca por Respostas
A principal hipótese por trás do alto índice de desaparecimentos em Jalisco é o recrutamento forçado para grupos criminosos, segundo Carmen Chinas, acadêmica da Universidade de Guadalajara. Jovens de poucos recursos são frequentemente as vítimas, evidenciando a complexidade social por trás da crise de segurança. Em suas buscas, familiares já encontraram cerca de 300 valas clandestinas no estado.
A tranquilidade, que momentos antes da morte de El Mencho parecia assegurada pelo coordenador geral estratégico de Segurança do estado, Roberto Alarcón, agora é uma questão em aberto. Ele garantia que Jalisco estava em paz, mas a recente explosão de violência abala essa afirmação e reacende o temor entre os habitantes.
Tecnologia Contra o Crime e a Incerteza para a Copa
Para garantir a segurança durante a Copa do Mundo, o governo de Jalisco investiu em tecnologia de ponta. Drones, bloqueadores de aeronaves não tripuladas e videovigilância com inteligência artificial são algumas das ferramentas empregadas. O número de câmeras de vigilância na região deve saltar de 7.000 para 13.000, segundo Juan Carlos Contreras, diretor-geral do centro estadual de controle de vigilância.
As autoridades, que antes se preocupavam com possíveis protestos de grupos de busca durante o evento, agora enfrentam a realidade de uma violência orquestrada pelo narcotráfico. “Haverá muitos problemas durante a Copa do Mundo porque ninguém se sente seguro”, afirma Juan Soler, aposentado. O impacto econômico já é sentido, com guias turísticos reportando o cancelamento de passeios devido à instabilidade.
Fifa Mantém Silêncio Diante da Crise
A Federação Internacional de Futebol (Fifa) optou por não comentar a situação de segurança em Guadalajara. Questionada sobre o assunto, uma porta-voz da entidade informou que, por enquanto, a Fifa não deseja fazer comentários sobre a segurança na próxima sede da Copa do Mundo, deixando um silêncio que contrasta com a apreensão gerada pela violência no México.
