Credcesta e Master: Aumento de Reclamações sobre Descontos Inesperados e Ligações Persistentes Atinge Aposentados e Servidores

Credcesta e Master: Aumento de Reclamações sobre Descontos Inesperados e Ligações Persistentes Atinge Aposentados e Servidores

Dúvidas sobre descontos no salário ou na aposentadoria, dificuldade para acessar contratos e para conseguir atendimento estão entre as queixas de quem contratou o cartão Credcesta. Este produto, inicialmente ofertado a funcionários públicos municipais e estaduais, passou a ser utilizado pelo Banco Master em operações com aposentados e pensionistas do INSS.

Professores e aposentados de diferentes estados relatam a identificação de descontos adicionais que não reconhecem, como valores relacionados a cartões que afirmam jamais ter utilizado, seguros ou refinanciamentos não autorizados. Há também relatos de ligações insistentes com promessas de redução de juros ou liberação de ‘troco’, sem explicações claras sobre o funcionamento do refinanciamento.

O Credcesta operava com o “Saque Fácil”, um empréstimo em dinheiro com parcelas descontadas da folha de pagamento, acrescidas de juros. Ao contratar o saque, emitia-se um cartão de crédito, onde o valor mínimo da fatura era descontado em folha, e o restante deveria ser pago por boleto. O produto surgiu como um crédito consignado em parceria com o Master e, posteriormente, parte da operação foi abrigada no Banco Pleno, liquidado pelo Banco Central. Conforme informado pelo SAC do Credcesta, novos empréstimos não estão sendo realizados.

Relatos de Descontos Não Reconhecidos Afligem Clientes

A professora Livia Badaró, 40, de Natividade (RJ), conta que, após fazer um empréstimo em 2025, passou a ter múltiplos descontos em folha que não reconhece. “Eles começam com mil ligações e mensagens para fisgar a gente. São insistentes. Quando você está em aperto financeiro acaba aceitando uma proposta, acreditando que vai ser bom”, afirma.

Após a contratação inicial, Livia relata ter recebido uma ligação com proposta de refinanciamento, prometendo redução de juros e liberação de ‘troco’, o que resultou em um novo empréstimo. Atualmente, ela possui quatro descontos em folha: R$ 329,35 (primeiro contrato), R$ 224,49 (ligado ao refinanciamento), além de R$ 56,62 e R$ 506,08, valores que ela diz não reconhecer. Três descontos estão vinculados ao nome do Master e um à Credcesta.

Livia afirma que nunca utilizou o cartão do benefício para compras e registrou reclamação no portal Consumidor.gov. Em resposta enviada em novembro de 2025 via Consumidor.gov, o Master alegou que o desconto de R$ 506,08 referia-se a um refinanciamento autorizado por ela, após envio de documentos e assinatura eletrônica.

Dificuldades de Acesso e Falta de Informação Geram Preocupação

Ana Paula Maciel, 44, de Brumado (BA), contratou dois empréstimos em 2018, mas nunca conseguiu consultar os contratos. Após a liquidação do Master, ela foi procurada pelo Banco Pleno via WhatsApp, com oferta de novo empréstimo. Segundo Ana Paula, o banco informou não se responsabilizar nem possuir informações sobre os contratos anteriores.

Em Curitiba (PR), a professora aposentada Tânia Alba, 59, recebeu, no fim de outubro do ano passado, uma fatura de um serviço da empresa VC Pode Saúde que diz não ter contratado. A empresa alegou contratação por telefone, mas não apresentou gravação. Após pedir o cancelamento, Tânia foi surpreendida com um desconto de R$ 89 em seu contracheque, vinculado ao Credcesta.

Ela afirma que só conseguiu o cancelamento após registrar uma queixa no Reclame Aqui, mas ainda assim teve dois descontos em folha. Tânia possui dois empréstimos com o Credcesta, reconhecendo tê-los contratado por meio de uma correspondente bancária. A reportagem procurou a VC Pode Saúde, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Prefeitura de Curitiba Suspende Descontos do Credcesta

Uma professora de Curitiba, que preferiu não se identificar, relatou que as parcelas do consignado eram compatíveis com o combinado inicialmente, mas depois passou a haver a cobrança simultânea do empréstimo e do valor mínimo da fatura do cartão de crédito, sem autorização. Ela conseguiu suspender os descontos após procurar o RH da prefeitura.

Em 9 de fevereiro, a Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal (SMGP) de Curitiba anunciou a suspensão de todos os descontos do cartão Credcesta contratados por servidores ativos. A secretaria justificou a medida pela falta de informações detalhadas sobre os contratos de cerca de 5.000 servidores municipais, aposentados e pensionistas que aderiram ao cartão.

A prefeitura informou que a decisão ocorreu após manifestações de servidores sobre cobranças em duplicidade e falhas de atendimento. O INSS também tem recebido reclamações semelhantes envolvendo aposentados e pensionistas do INSS nas páginas do Reclame Aqui referentes ao Master e ao Credcesta, com beneficiários relatando descontos não reconhecidos e dificuldades para obter cópias de contratos.

Posicionamento e Orientações para Consumidores

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, afirmou que a instituição “sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.

O advogado previdenciário Rômulo Saraiva aponta que a combinação de venda por telefone, informações prestadas de forma acelerada e contratos firmados à distância dificulta a compreensão do que está sendo contratado, favorecendo práticas como venda casada e cobrança de serviços não claramente autorizados.

O INSS, por sua vez, informou que, desde a deflagração da Operação Sem Desconto, vem reexaminando seus fluxos internos de fiscalização de instituições financeiras. A principal preocupação do órgão é garantir que o desconto decorra de um ato de vontade inequívoco do beneficiário, nas condições avençadas e com respeito à legislação.

O Que Fazer em Casos de Descontos Indevidos

Em caso de descontos indevidos, o consumidor deve, primeiramente, procurar o banco, a instituição financeira ou a associação responsável pela cobrança para solicitar o cancelamento e a devolução dos valores. Se o problema não for resolvido, é possível registrar uma reclamação no Portal do Consumidor, plataforma mantida pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).

Segundo o órgão, as queixas sobre o Credcesta no portal começaram a aparecer em 2020, com um aumento em 2025, período que registrou 2.285 ocorrências. Para beneficiários do INSS, também é possível procurar a ouvidoria do órgão, por meio da Central 135 ou pelo aplicativo e site Meu INSS.

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