Do ‘Little Brazil’ na Rua 46 à Nova Onda Brasileira em Astoria: O Que Aconteceu com o Coração Brasileiro de Nova York?

A Rua 46 em Manhattan, outrora vibrante centro da comunidade brasileira, hoje vive um declínio, enquanto Astoria, no Queens, se consolida como o novo polo da brasilidade em Nova York.

Entre as décadas de 1980 e 1990, a Rua 46, em Manhattan, era o epicentro da cultura brasileira em Nova York. Restaurantes, lojas de eletrônicos, joalherias e o som da bossa nova embalavam um quarteirão que se tornou conhecido como Little Brazil.

Turistas e imigrantes encontravam ali um pedaço de casa, com a possibilidade de saborear feijoada, tomar caipirinhas e comprar produtos que remetiam ao Brasil. A famosa placa oficial instalada pela prefeitura solidificou a identidade do local.

No entanto, fatores como crises econômicas no Brasil, a ascensão da indústria eletrônica nacional e a especulação imobiliária em Manhattan levaram a um declínio significativo da presença brasileira na Rua 46. O festival Brazil Day, que chegava a reunir 1,5 milhão de pessoas, não foi realizado em 2025 por “diversos obstáculos”, conforme informado em seu site oficial.

Essa mudança foi sentida por quem viveu a época de ouro. Luis Gomes, dono do restaurante Via Brasil desde 1978, um dos poucos remanescentes, lamenta a transformação: “Ah, não tem comparação. Naquela época existiam grupos de colégios que vinham para compras, ônibus de turismo, era uma época totalmente diferente”, relembra.

Gomes descreve a rua como um local muito mais agitado nos anos 90, com muitas boutiques e clubes brasileiros. “Mudou muito daquela época para cá, infelizmente, uma mudança drástica. Não creio que vá voltar”, afirma, com nostalgia, ao BBC News Brasil.

Fatores que Contribuíram para o Declínio do Little Brazil

A antropóloga Maxine Margolis, autora do livro “Little Brazil”, aponta que a presença brasileira na Rua 46 era mais voltada para turistas do que para residentes. “Na época, havia muitas lojas de eletrônicos. Brasileiros vinham à 46th Street para comprar televisões e outros produtos, que eram muito mais baratos nos EUA do que no Brasil”, explica.

“Isso mudou porque muitos desses produtos começaram a ser produzidos no Brasil, e não havia mais necessidade de importar. Aos poucos, as lojas fecharam, e a presença brasileira na rua foi diminuindo”, complementa a antropóloga, conforme apurado pelo BBC News Brasil.

Além disso, a construção de grandes prédios comerciais e empreendimentos de luxo em Manhattan elevou drasticamente os aluguéis. Essa especulação imobiliária prejudicou pequenos negócios, incluindo os brasileiros, que não conseguiam arcar com os custos crescentes.

Um artigo do jornal The New York Times de 1984, intitulado “Crise da dívida latino-americana atinge a ‘Rua Brasileira’ de Nova York”, já evidenciava os impactos da instabilidade econômica brasileira. O texto apontava que a inflação e a recessão no Brasil afetavam diretamente o movimento de turistas e comerciantes na Little Brazil.

Jaime Felzen, dono da loja de eletrônicos Brasil Som na época, relatou ao jornal uma queda de 90% em suas vendas entre 1981 e 1984. “Era uma época que me dá saudade. Só se falava português, de uma ponta da rua à outra”, disse Abrão Glikas, dono da Bertabrasil Butik, outra loja da região.

Astoria: O Novo Coração Brasileiro em Nova York

Enquanto a Rua 46 perdia sua essência brasileira, o bairro de Astoria, no Queens, emergia como um novo centro para a comunidade. O custo de vida mais baixo e a busca por um ambiente mais tranquilo e acessível atraíram muitas famílias brasileiras.

“A 46th Street era importante para os turistas, mas acho que foi menos importante para os imigrantes que viviam em Nova York”, afirma a antropóloga Margolis. “Se você visitar Astoria hoje, ainda há muitos brasileiros”, observa.

Astoria se destaca por abrigar um grande supermercado brasileiro, com produtos que remetem diretamente ao Brasil, desde itens de higiene até ingredientes para feijoada. Restaurantes e lanchonetes mais acessíveis também contribuíram para a consolidação do bairro como polo brasileiro.

Estabelecimentos como o restaurante Copacabana e o mercado Rio Market são hoje símbolos da presença brasileira que se espalhou e se reinventou em Nova York, longe do burburinho de Manhattan. De acordo com dados do U.S. Census Bureau (American Community Survey, 2020), Astoria tem cerca de 37% de população imigrante.

Resquícios e Nostalgia na Antiga Little Brazil

Apesar do declínio, ainda é possível encontrar vestígios da antiga Little Brazil na Rua 46. A loja Búzios, por exemplo, opera discretamente, oferecendo produtos que matam a saudade dos brasileiros, como pão de queijo, requeijão e guaraná.

“A gente compra saudade”, explica Marcela Ferreira, proprietária da Búzios. “Eu pelo menos detesto quando muda a embalagem, parece que já não é mais a mesma coisa. As pessoas querem a experiência que tiveram quando eram crianças”, complementa.

Biquínis, chinelos Havaianas e até livros infantis da Turma da Mônica também fazem sucesso entre clientes estrangeiros e brasileiros que buscam manter viva a cultura. A inauguração da placa “Little Brazil” foi resultado da ação de imigrantes que buscavam o reconhecimento oficial do espaço.

A proximidade com o Diamond District também atraiu brasileiros envolvidos com a comercialização de pedras preciosas, fortalecendo o comércio local em um passado não tão distante. O Little Brazil de Manhattan hoje é mais uma lembrança, enquanto a brasilidade floresce em novos horizontes na cidade.

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