Fluxo de capital estrangeiro no Brasil não tem prazo para acabar, impulsionado por dólar fraco e diversificação global.
O Brasil tem sido um destino atraente para o capital estrangeiro, especialmente em janeiro, com um fluxo significativo de investimentos na B3. Especialistas do mercado financeiro apontam que esse movimento não tem data para terminar, sendo impulsionado por um cenário global de enfraquecimento do dólar e uma busca generalizada por diversificação de portfólios.
A tese central baseia-se na análise do comportamento da moeda americana ao longo das décadas. Historicamente, o dólar passa por ciclos de força e fraqueza que podem durar de seis a doze anos. Atualmente, o mercado observa o fim de um período de dólar forte, que se estendeu por aproximadamente 15 anos, com pico entre 2022 e 2023.
Esse movimento de saída de capital dos Estados Unidos e busca por outros mercados, como o Brasil, é resultado de diversos fatores. A análise é de que, após um longo período de concentração em ativos americanos, investidores buscam novas oportunidades em mercados com potencial de valorização e valuations mais atrativos. Conforme informação divulgada por especialistas ouvidos pela Folha, essa diversificação é um movimento de longo prazo.
Ciclo Global de Dólar Fraco e Busca por Diversificação
Segundo Gina Baccelli, estrategista-sênior do Itaú, o período de dólar forte entre 2011 e 2024, com pico entre 2022 e 2023, levou a uma concentração de carteiras em ativos norte-americanos. O chamado “excepcionalismo norte-americano”, que combina crescimento econômico, forte desempenho do mercado de ações e o papel do dólar como moeda de reserva mundial, sustentou essa tendência.
No entanto, eventos recentes como o início da guerra na Ucrânia e o congelamento de reservas internacionais russas desencadearam um processo de diversificação de moedas globais. Luis Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management, destaca que o exemplo da Rússia levou muitos bancos centrais a buscar outras reservas cambiais para reduzir a dependência do dólar.
A ascensão de Donald Trump à Casa Branca e suas políticas controversas, como tarifas e ofensivas comerciais, também contribuíram para desgastar a imagem institucional dos EUA e, consequentemente, a credibilidade do dólar. Trump, nesse contexto, atuou como um catalisador para o processo de desvalorização do dólar e a busca por diversificação.
Brasil como Destino Atrativo para Investidores
O Brasil surge como um destino promissor nesse cenário de realocação de capital. A alta da taxa Selic e os valuations considerados baratos no mercado brasileiro atraem investidores em busca de oportunidades. A diversificação não significa uma fuga completa dos EUA, mas sim uma busca por mercados que antes estavam ofuscados pelo boom da inteligência artificial.
Investidores agora se perguntam: “Quem tem títulos públicos rentáveis? Quem tem um mercado barato com potencial para destravar valor? Quem tem menos endividamento, quem tem mais commodities? Quem não é um mercado de inteligência artificial, mas pode ser fornecedor da cadeia de valor via minerais críticos, via infraestrutura?” A resposta, segundo Ferreira, passa pelos mercados emergentes, e o Brasil se destaca nesse contexto.
Embora o Brasil represente apenas 4% do MSCI Emerging Markets, um dos principais índices globais de mercados emergentes, a entrada de capital estrangeiro, mesmo que em pequena porcentagem, representa bilhões de reais entrando na Bolsa brasileira. Isso ocorre mesmo com a expectativa de cortes na taxa Selic, que podem atrair o investidor local de volta para a renda fixa.
Desafios e Oportunidades para o Fluxo Estrangeiro
O principal desafio para a continuidade do fluxo estrangeiro no Brasil, segundo analistas, é a eleição presidencial de outubro. Mais do que o nome eleito, o mercado observará a condução fiscal do governo a partir de 2027. Contudo, Baccelli ressalta que o resultado eleitoral pode não ser o maior determinante, já que os fundos emergentes são pequenos em comparação aos globais.
Por outro lado, os ciclos de cortes na taxa Selic podem ser um catalisador para o investidor estrangeiro. A queda dos juros pode impulsionar a economia e gerar melhores resultados para as empresas. O estrangeiro tende a comprar blue chips, como Petrobras e Vale, devido à sua liquidez, mas pode apostar em empresas cíclicas com a queda da Selic.
