Por que Mark Smith trocou voos rápidos por viagens lentas de trem pela Europa? Descubra os motivos e a expansão do transporte ferroviário.
Em um mundo onde a velocidade é frequentemente sinônimo de eficiência, Mark Smith, de 58 anos, escolheu um caminho diferente. Ele abandonou os aviões para redescobrir a Europa sobre trilhos, uma decisão motivada por paixão, consciência ambiental e a busca por uma experiência de viagem mais profunda. Sua jornada, que o levou de Londres a Tallinn, na Estônia, em quatro dias, oito trens e cerca de R$ 2,7 mil, contrasta drasticamente com um voo de poucas horas e R$ 135.
Essa escolha, que pode parecer contraintuitiva para muitos, reflete uma tendência crescente na Europa. Viajar de trem exige mais tempo e, muitas vezes, um investimento financeiro maior, mas atrai um público que valoriza uma experiência mais imersiva e, crucialmente, busca reduzir seu impacto ambiental. O setor ferroviário europeu está em expansão, impulsionado por essa demanda, apesar de desafios como infraestrutura defasada.
A decisão de Smith não é recente. Sua paixão por trens começou na adolescência, floresceu em trabalhos em agências de viagens e culminou na criação do site seat61.com, uma referência mundial em informações sobre viagens ferroviárias. Conforme apurado pelo g1, o site recebe até 1 milhão de visitas mensais, evidenciando o interesse global por esse modal de transporte. Ele observa uma mudança no perfil dos viajantes: inicialmente, buscavam alternativas por fobia de voar ou restrições médicas; hoje, muitos almejam uma experiência superior e a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Uma vida dedicada aos trilhos e à informação
Mark Smith relembra com carinho suas viagens escolares para a França e Rússia como o ponto de partida de seu amor pelos trens. A contemplação das paisagens e a interação com outras pessoas durante o trajeto, algo que o avião não proporciona, o cativaram. Essa paixão se tornou sua profissão quando trabalhou vendendo passagens ferroviárias, conhecendo cada rota e conexão.
Em 2001, Smith lançou o site seat61.com, inspirado em seu assento preferido no Eurostar. O que era um hobby se transformou em um trabalho em tempo integral, construindo uma enciclopédia virtual sobre viagens de trem. O portal oferece detalhes sobre rotas, tarifas, dicas essenciais e informações práticas para mais de cem países, tornando-se um recurso indispensável para entusiastas e novos adeptos do transporte ferroviário.
Trens: uma alternativa mais ecológica para o planeta
A pegada de carbono é um dos principais argumentos a favor das viagens de trem. Em escala global, as viagens aéreas representam cerca de 2,5% das emissões totais de dióxido de carbono (CO2), enquanto os trens são responsáveis por apenas 0,26%. Um voo direto de Londres a Tallinn emite aproximadamente 380 quilos de CO2 por passageiro, um número significativamente maior do que os 110 a 140 quilos gerados pela viagem de trem, conforme dados apurados pelo g1. A tendência é que essa diferença diminua ainda mais com a substituição de trens a diesel por modelos elétricos movidos a energia renovável.
Apesar da vantagem ambiental, o transporte ferroviário ainda enfrenta obstáculos. A fragmentação da rede, que exige a utilização de múltiplas companhias com diferentes sistemas de reserva, idiomas e moedas, é um dos maiores desafios, como relata Smith. A incerteza quanto a possíveis atrasos e a perda de conexões também geram estresse para os passageiros.
Infraestrutura e custos: os desafios da expansão ferroviária
A modernização da extensa rede ferroviária europeia, com mais de 200 mil quilômetros de trilhos, é um processo caro e demorado. Em 2018, o custo médio de construção de uma linha de alta velocidade na União Europeia era de 25 milhões de euros por quilômetro, o dobro do custo de uma rodovia. A manutenção de sistemas de sinalização e cabeamento elétrico também eleva os gastos.
Em contrapartida, os custos de infraestrutura para o transporte aéreo se concentram nos aeroportos, e as companhias aéreas frequentemente se beneficiam de isenções fiscais sobre combustível e tributos. Smith lamenta que, em alguns países, passageiros paguem impostos sobre bilhetes de trem, mas não sobre passagens aéreas, o que desincentiva o uso do modal ferroviário.
Apesar desses entraves, o transporte ferroviário vem experimentando um crescimento notável. Em 2024, pela primeira vez, mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo utilizaram trens de longa distância ou interregionais. Esse aumento demonstra um interesse crescente por viagens mais sustentáveis e uma experiência de deslocamento mais rica e conectada com o ambiente.
