Investidores apontam que a inflação impulsionada por IA é um risco negligenciado para 2026, com investimentos em data centers e chips elevando custos, pressionando juros e lucros
Os mercados globais chegaram a 2026 embalados pela euforia em torno da inteligência artificial, com grandes ganhos em 2025, mas gestores alertam para um risco pouco considerado, a inflação impulsionada por IA.
O crescimento dos investimentos em tecnologia, apoio público em Estados Unidos, Europa e Japão, e a corrida por data centers têm potencial para reaquecer preços e forçar bancos centrais a reverter cortes, freando o dinheiro barato que alimenta a bolha.
Conforme informação divulgada por gestores e analistas do mercado financeiro.
O que preocupa investidores
Sete grupos de tecnologia nos EUA responderam por metade de toda a valorização do mercado no ano passado, e os índices tiveram ganhos de dois dígitos em 2025, enquanto expectativas de novos cortes nos juros ajudaram títulos a registrar o melhor desempenho anual dos últimos cinco anos.
Gestores dizem que a volta da inflação pode encerrar ciclos de cortes de taxa e reduzir o apetite por investimentos em tecnologia, aumentando custos de financiamento para projetos de IA e pressionando lucros e preços das ações.
Citações e previsões que ilustram o risco
Trevor Greetham, chefe de multiativos da Royal London Asset Management, disse, “Você precisa de um alfinete que fure a bolha e ele provavelmente virá por meio de dinheiro mais apertado”, ao explicar como aperto monetário pode reduzir o fluxo para tecnologia.
Andrew Sheets, estrategista do Morgan Stanley, afirmou, “Em nossa previsão, os custos estão aumentando, e não diminuindo, porque há inflação nos custos dos chips e nos custos de energia”. Ele disse que a inflação dos preços ao consumidor dos EUA permanecerá acima da meta de 2% do Federal Reserve até o final de 2027, em parte devido ao forte investimento corporativo em IA.
Julius Bendikas, chefe europeu de economia e alocação dinâmica de ativos da Mercer, alertou, “O que nos mantém acordados à noite é que o risco de inflação ressurgiu”. Bendikas já está se afastando de mercados de dívida que podem ser abalados por choques inflacionários.
Impactos práticos: chips, energia e data centers
Analistas destacam que a corrida de hiperescaladores como Microsoft, Meta e Alphabet para construir centros de processamento tem sido uma força inflacionária, devido ao ritmo em que esses projetos consomem energia e chips avançados.
O Deutsche Bank estima que investimentos em data centers de IA podem atingir até US$ 4 trilhões até 2030, e a rápida implantação desses projetos pode gerar gargalos no fornecimento de chips e eletricidade, elevando os custos de investimento.
Empresas já mostram sinais de pressão, com ações caindo após anúncios de aumento de investimentos ou queda de margens, e fabricantes como a HP esperando impacto nos preços e lucros no segundo semestre de 2026 por conta da alta nos custos de chips de memória.
Como isso pode mudar a alocação de ativos
Com o risco de inflação subestimado, alguns gestores passaram a preferir proteção, como Treasuries indexados à inflação, enquanto outros alertam que avaliações aplicadas às ações de grandes empresas de IA podem cair se as taxas subirem.
Fabio Bassi, do J.P. Morgan, disse que a melhoria do mercado de trabalho dos EUA, estímulos e cortes já realizados manterão a inflação acima da meta do Fed “independentemente do preço dos chips”.
George Chen, da Asia Group, resumiu o efeito esperado, “A inflação dos custos dos chips de memória aumentará os preços dos grupos de IA, reduzirá os retornos dos investidores e, então, o fluxo de dinheiro para esse setor diminuirá”.
Analistas e gestores recomendam cautela, monitoramento de sinais de aceleração de preços e preparação para um cenário em que a inflação impulsionada por IA force uma nova postura dos bancos centrais, alterando a dinâmica que sustentou a euforia dos mercados.
