Torcedoras Colombianas Desafiam o Machismo e Lideram Mudança nos Estádios
Em meio à paixão vibrante que pulsa nos estádios colombianos, um movimento transformador está ganhando força. Grupos de mulheres, cansadas do machismo e da violência que historicamente marcaram as arquibancadas, estão se organizando para reescrever as regras do jogo, buscando um ambiente mais seguro e inclusivo para todas.
Com bumbos, bandeiras e muita determinação, essas torcedoras não apenas apoiam seus times, mas também lutam por respeito e igualdade. Elas aspiram a um futuro onde a alegria de assistir a uma partida de futebol não seja ofuscada pelo medo de assédio ou discriminação.
Essa iniciativa, que já conta com grupos ativos em diversas cidades, busca inspiração em modelos de sucesso no Brasil e no Chile, provando que a paixão pelo futebol pode, sim, andar de mãos dadas com a luta por direitos. Conforme informação divulgada pela AFP, milhares de torcedoras do Once Caldas, por exemplo, já se reúnem em grupos como as Futboleras e Fortineras para mudar a cultura dos estádios.
O Nascimento de uma Força Feminina no Futebol Colombiano
Valeria González, uma das líderes do movimento em Manizales, dedica sua vida a essa causa. Para ela, ser uma torcedora organizada é mais do que um hobby, é uma identidade. Ao lado de dezenas de outras mulheres, ela comanda cânticos e bandeiras, transformando o Estádio Palogrande em um palco de empoderamento.
Esses grupos, que somam cerca de dez em toda a Colômbia desde 2004, apoiam clubes como Independiente Medellín, Deportivo Pereira, América de Cali e Santa Fe. A médica Natasha Peláez encontrou nessas organizações um refúgio após sofrer assédio, afirmando: “Me juntei às Futboleras e fui conquistando um espaço dentro da torcida, senti que finalmente pertencia a algo”.
Combatendo Assédio e Mudando Cânticos Ofensivos
A luta vai além da organização. As torcedoras buscam ativamente desconstruir práticas machistas arraigadas. Uma delas é o uso de mulheres para entrar com objetos ilícitos nos estádios, escondidos em suas partes íntimas. Elas também trabalham para mudar os cânticos ofensivos, como a expressão “prostituta de cabaré” usada para insultar rivais.
“Substituímos esses cânticos por frases mais neutras, porque podemos torcer com a mesma paixão sem insultar nosso gênero”, explica Maria José García, integrante das Fortineras. O apoio ao time feminino da liga também é uma prioridade, onde o ambiente nas arquibancadas costuma ser menos hostil.
Yinna Pito e o Coletivo Feminista de Futebol Escarlata
Em Cali, a enfermeira Yinna Pito, de 33 anos, vivenciou de perto a violência nos estádios. Trabalhando em um hospital próximo ao Estádio Pascual Guerrero, ela testemunhou brigas entre torcidas e casos de mulheres drogadas para fins de abuso. Essa realidade a impulsionou a criar o Coletivo Feminista de Futebol Escarlata.
Seu objetivo é replicar o que outras iniciativas já fazem: proporcionar um espaço seguro para mulheres dentro das instalações esportivas. A experiência com “essa cultura de torcidas violentas” a motivou a ser uma agente de mudança no futebol.
Paralelos na América do Sul: Brasil e Argentina
A luta contra o machismo nos estádios não é exclusiva da Colômbia. No Brasil, Amanda Custodio lidera o coletivo Fiel Fazendinha, apoiando o time feminino do Corinthians. Ela relata que, apesar de sua família torcer pelo clube, o medo das brigas a impedia de ir ao estádio, um receio superado com a formação do grupo.
Em contraste, a Argentina apresenta um cenário diferente. Clubes como Boca Juniors e River Plate eliminaram arquibancadas exclusivamente femininas há décadas, declarando todos os setores mistos. Nathalie Goldstejn, uma professora de 30 anos, relata nunca ter sofrido violência por ser mulher em jogos do River Plate. Lidia Otero, de 74 anos, sócia do Boca desde o berço, corrobora essa experiência, afirmando ter sempre apoiado seu time sem problemas na La Bombonera.
Essas diferentes realidades mostram o complexo cenário do futebol sul-americano em relação à participação feminina, mas reforçam a importância e a urgência das iniciativas lideradas por mulheres como as torcedoras colombianas, que buscam um futuro mais justo e igualitário para todas nos estádios.
