Pesquisador da USP critica teste genético do COI para atletas trans: “decisão é política, não científica”

Comitê Olímpico Internacional adota teste genético para definir participação de atletas trans, mas cientista da USP contesta base científica da medida.

A recente decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de implementar testes genéticos, focados na detecção do gene SRY, para determinar a elegibilidade de atletas em categorias femininas tem gerado controvérsia. A medida, que visa restringir a participação de mulheres transgênero, é vista por especialistas como politicamente motivada, com pouca sustentação em evidências científicas sólidas.

Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e colunista da Folha, liderou uma metanálise com 51 estudos sobre o tema. Sua análise sugere que a política do COI reflete um cenário social e geopolítico desfavorável aos direitos das pessoas trans, em vez de se basear em dados científicos conclusivos.

A alegação de que a medida preserva a justiça e a segurança nas competições femininas, baseada em supostas vantagens competitivas de atletas trans devido à exposição prévia à testosterona, não encontra respaldo robusto na literatura científica atual. Os estudos existentes são escassos e, em muitos casos, desatualizados, dificultando análises mais precisas.

Cientista da USP questiona a validade do teste genético do COI

Bruno Gualano, após revisar extensivamente a literatura científica, afirma que os estudos que fundamentam políticas restritivas para atletas trans ainda são limitados. Ele destaca que a literatura científica disponível não comprova de forma consistente uma vantagem física significativa de mulheres trans sobre mulheres cisgênero em competições femininas. A escassez e a desatualização dos dados dificultam análises mais robustas sobre o tema.

O pesquisador da USP ressalta que a presença do gene SRY, detectado pelo novo método do COI, não garante automaticamente uma expressão funcional que resulte em vantagem competitiva. Gualano explica que existem condições biológicas raras onde o cromossomo Y pode estar presente em indivíduos com fenótipo feminino, o que evidencia que o teste genético, isoladamente, é insuficiente para classificar atletas ou estimar vantagens competitivas.

Contexto político e social influencia a decisão do COI

A decisão do COI de reintroduzir um critério genético único para a participação de atletas trans é vista por Gualano como um reflexo do clima político e social atual, que tem se mostrado desfavorável aos direitos das pessoas trans. Essa percepção é compartilhada por grupos LGBTQIA+ e de direitos humanos, que criticam o endurecimento das regras em diversas entidades esportivas e federações internacionais nos últimos meses.

A alegação de que a medida visa preservar a integridade e a justiça na categoria feminina, impedindo vantagens indevidas de atletas transgênero, é contestada pela falta de evidências científicas robustas. Segundo o COI, atletas trans representam menos de 0,001% dos esportistas de alto rendimento, o que minimiza o argumento de impacto generalizado.

Diretrizes do COI e a exclusão de atletas trans da categoria feminina

As novas diretrizes do COI estipulam que mulheres trans com resultado positivo no teste SRY, incluindo atletas XY e aquelas com variações intersexo (DSD) sensíveis a andrógenos, serão elegíveis para categorias masculinas ou abertas. A presidente do COI, Kirsty Coventry, defendeu a política, argumentando que ela se baseia em ciência e visa garantir competições justas e seguras, afirmando que “não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina”.

Historicamente, o COI já abandonou testes universais de sexo após os Jogos de Atlanta em 1996 e, desde 2021, vinha adotando diretrizes mais flexíveis, delegando a decisão às federações. Para Gualano, a retomada de um critério genético específico representa um retrocesso metodológico e aprofunda a exclusão de atletas trans do esporte.

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