Regulação mais rígida e novos impostos marcam o cenário das apostas esportivas no futebol brasileiro.
A paisagem dos patrocínios na Série A do Campeonato Brasileiro sofreu uma reviravolta significativa. Se em 2025, 18 dos 20 clubes ostentavam marcas de empresas de apostas esportivas, as populares ‘bets’, como patrocinadores master, o cenário para 2026 se apresenta drasticamente diferente.
O aumento da regulamentação, com novas leis e tributações, tem pressionado os custos das empresas do setor. Essa nova realidade está forçando uma reavaliação dos altos investimentos em patrocínios esportivos, um movimento que já se reflete na redução da presença dessas marcas em espaços nobres dos uniformes.
A mudança, conforme explica Gustavo Biglia, especialista em regulação de jogos e apostas, é uma consequência direta da Lei nº 14.790/2023. A exploração de apostas de quota fixa agora está condicionada à constituição das operadoras no país e à obtenção de autorização específica, além de um novo regime tributário. Essas alterações, segundo Biglia, permitiam anteriormente investimentos mais agressivos em marketing devido a um custo regulatório inferior.
Clubes sentem o impacto da nova regulamentação
Diversos clubes já sentiram o impacto da nova conjuntura. Santos, Vasco, Bahia, Internacional, Grêmio e Coritiba deixaram de contar com patrocínios master de casas de apostas nos últimos meses. A dupla gaúcha, por exemplo, rescindiu contrato com a Alfa Bet devido a atrasos nos repasses.
Santos e Bahia optaram por rescisões amigáveis com 7k e Viva Sorte Bet, respectivamente. Já Vasco e Coritiba não tiveram seus contratos renovados com Betfair e Reals Bet. O Santos é, até o momento, o único do grupo a firmar um novo patrocínio master, mas com valores anuais cerca de 30% menores.
Um novo modelo para o mercado de apostas
O novo modelo regulatório estabelecido pela Lei nº 14.790/2023 impõe uma tributação de 12% sobre a receita bruta (GGR), além de PIS, Cofins e ISS. Uma taxa de outorga de R$ 30 milhões para autorização por cinco anos também foi definida. Para os apostadores, a tributação incide sobre prêmios líquidos acima de R$ 2.259,20, com alíquota de 15%.
Gustavo Afonso Ribeiro e Lacerda, da Ana Gaming, destacam que o setor ainda está se adaptando, e o aumento da tributação, que não era previsto, forçou a repensagem de estratégias. Ainda assim, ele ressalta que os investimentos no esporte continuam sendo um ativo valioso, abrangendo também embaixadores, competições e mídia.
Busca por eficiência e retorno mensurável
Eduardo Corch, especialista em marketing, aponta que as casas de apostas, após um ciclo de consolidação de marca, buscam agora maior eficiência. O foco se desloca da simples presença nas camisas para ações com retorno mais mensurável. A crescente concorrência e o alto custo de aquisição de clientes no Brasil também pressionam as margens de lucro, levando à realocação de verbas publicitárias.
Pietro Cardia Lorenzoni, da ANJL, prevê uma concentração de investimentos em um número menor de empresas. Ele considera natural essa diminuição, pois o mercado está em processo de amadurecimento e consolidação, com algumas empresas saindo e outras se fortalecendo.
A consolidação do mercado e a integridade
Apesar da redução geral, há casos de renovações com valores expressivos, como o do Corinthians com a Esportes da Sorte, que foi renovado até 2029 com valores anuais que podem chegar a R$ 200 milhões. Darwin Filho, CEO do Grupo Esportes Gaming Brasil, vê a parceria como estratégica para fortalecer a conexão com a torcida.
No entanto, consultores como José Sarkis Arakelian e Leonardo Henrique Roscoe Bessa apontam para uma possível “bolha” nos valores pagos por algumas bets, e a importância da integridade e conformidade com a lei para a permanência a longo prazo. A Anatel, por exemplo, derrubou cerca de 25 mil sites ilegais de apostas em 2025, um esforço para construir um ambiente mais sólido e confiável.
A expectativa, segundo Arakelian, é de que a diminuição de empresas e a consolidação do mercado levem a uma redução nas ofertas e nos valores de patrocínio. Esse movimento é visto como natural à medida que o setor se torna mais maduro e regulado.
