Jovem analista alega discriminação após ser demitida por precisar de sono adequado para gerenciar transtorno de humor e ansiedade.
Um caso que promete agitar Wall Street e expor as duras condições de trabalho no mercado financeiro está prestes a ir a julgamento nos Estados Unidos. Kathryn Shiber, uma analista júnior da renomada boutique de fusões e aquisições Centerview Partners, foi demitida menos de três semanas após ter um acordo de trabalho especial aprovado para garantir seu direito a nove horas de sono por noite, necessário para gerenciar seu diagnosticado transtorno de humor e ansiedade.
A empresa, que inicialmente concordou com o arranjo, teria repreendido a jovem de 21 anos por suas necessidades de descanso, questionando sua adequação à carreira. Agora, Shiber processa a Centerview por discriminação por deficiência, buscando compensação por danos que alega terem impactado permanentemente sua trajetória profissional.
O julgamento, com início previsto para a próxima semana em um tribunal federal de Nova York, reacende o debate sobre a cultura de exaustão e longas jornadas de trabalho impostas a jovens ambiciosos em busca de salários e status elevados. A decisão judicial poderá definir se a disponibilidade ininterrupta é realmente uma função essencial no setor, conforme informações divulgadas pelo Financial Times.
A controvérsia do acordo de sono e a demissão relâmpago
Em 2020, Kathryn Shiber iniciou sua carreira na Centerview Partners com um arranjo de trabalho que parecia incomumente civilizado para o ambiente competitivo de Wall Street. A empresa concedeu a ela um período garantido de nove horas para dormir todas as noites, como forma de acomodação para seu transtorno de humor e ansiedade. Em contrapartida, Shiber se comprometeu a estar disponível para trabalhar em todos os outros momentos, sete dias por semana.
No entanto, a implementação desses termos durou pouco. Menos de três semanas depois, Shiber foi convocada para uma videochamada e demitida. O diretor de operações da empresa a repreendeu por ter se candidatado a um cargo em banco de investimento, dadas suas necessidades de descanso, segundo o relato.
Debate sobre a essencialidade das longas jornadas em Wall Street
O juiz federal Edgardo Ramos, em outubro passado, determinou que o caso seguisse adiante, escrevendo que há uma disputa genuína sobre se a capacidade de estar disponível a todas as horas do dia e trabalhar longas e imprevisíveis jornadas é uma função essencial do cargo de analista. Essa questão pode ser central no julgamento.
As condições de trabalho em Wall Street são um tópico de controvérsia há anos. Em 2021, um grupo de analistas juniores do Goldman Sachs viralizou na internet com uma apresentação detalhando suas longas jornadas de trabalho remoto durante a pandemia e a falta de sono. O episódio levou alguns bancos a implementar limites de horas e a introduzir um dia de folga garantido no fim de semana.
Defesa e acusação: visões divergentes sobre a demissão
Shiber alega que sua demissão prejudicou permanentemente sua carreira no setor financeiro e busca milhões de dólares em compensação, incluindo o salário que teria recebido na próxima década, remunerações atrasadas e indenização por sofrimento emocional. Seus advogados sustentam que a medida de acomodação era razoável.
A Centerview Partners, por outro lado, argumenta que longas e imprevisíveis jornadas são uma consequência inerente ao trabalho de um banqueiro de investimento e que não havia acomodação razoável disponível que permitisse a Shiber desempenhar a função com a necessidade de oito a nove horas de sono consistente por noite. A empresa afirma que a janela de sono garantida foi pensada apenas como uma solução de curto prazo.
O impacto da decisão e o futuro da jovem analista
Katherine Macfarlane, professora e diretora do programa de direito e política de deficiência na Faculdade de Direito da Universidade de Syracuse, considera o caso incomum, pois ações sob a Lei dos Americanos com Deficiências frequentemente são rejeitadas em fases anteriores do processo. O julgamento com júri no tribunal federal de Nova York promete ser um marco nesse debate.
A defesa da Centerview tentou desqualificar o cofundador Robert Pruzan de testemunhar, alegando que ele não tomou decisões no caso. Enquanto isso, Shiber relatou ter ganhado US$ 582 mil (aproximadamente R$ 3 milhões) desde sua demissão, incluindo um período no grupo financeiro do Google, mas afirma que o ato da Centerview terá um impacto devastador em seus ganhos futuros.
