Investigação aponta que o bombardeio digital contra o Banco Central envolveu influenciadores pagos, contratos de sigilo de R$ 800 mil e coordenação chamada Projeto DV para amplificar críticas
Ao menos 46 perfis em redes sociais passaram a publicar mensagens críticas e enviesadas contra dirigentes do Banco Central, em uma campanha que cresceu nas últimas semanas.
O recrutamento teria ocorrido com contrato de confidencialidade que prevê multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo, segundo os elementos apurados pela polícia.
As ações coincidiram com a disputa jurídica em instâncias como o STF e o TCU, e miraram, entre outros, dirigentes que atuaram no processo de venda do Master ao BRB, conforme informação divulgada pelo g1.
Como funcionou o recrutamento e o tal Projeto DV
O esquema foi apresentado a influenciadores por um profissional identificado como André Salvador, que se dizia responsável por “gerenciamento de reputação e gestão de crise de um executivo grande”.
Nas abordagens, segundo as informações obtidas, foi oferecida participação no chamado Projeto DV, com promessas de remuneração milionária e contrato de confidencialidade em nome da Unltd Network.
O contrato classifica como confidenciais as estratégias de comunicação, os planos, as informações jurídicas e financeiras, e os nomes de qualquer participante, e determina multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo.
Quem foram os alvos dos ataques digitais
O principal alvo foi Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, que deixou o cargo em 31 de dezembro de 2024.
Outros alvos incluíram o presidente do BC, Gabriel Galípolo, seus familiares, o diretor de Fiscalização Aílton de Aquino Santos, além de banqueiros e o presidente da Febraban, Isaac Sidney.
A atenção sobre esses nomes se deve ao papel da área coordenada por Renato Gomes, que recomendou o veto à compra do Master pelo BRB e subsidiou achados relatados ao Ministério Público Federal.
Perfis, publicações e exemplos de conteúdo
Boa parte dos 46 perfis identificados são páginas de fofoca e humor, tradicionalmente distantes de temas econômicos, o que reforça a natureza coordenada da campanha.
Entre os perfis citados estão @divasdohumor, @Festadafirma, @Futrikei e @Alfinetei. Um exemplo de postagem do @divasdohumor afirmou que a gestão de Renato Gomes deixou “um cenário de instabilidade no mercado financeiro”, com “mudanças regulatórias frequentes” e “ausência de sinalização clara”.
Agências de marketing digital teriam participado da gestão de alguns desses perfis, entre elas a Banca Digital, o Grupo Farol e a Deubuzz, empresas que vendem espaços para postagens coordenadas.
Resposta das agências, recusas e investigação em curso
O Grupo Farol afirmou que “não houve qualquer negociação, acordo ou campanha conduzida pelo grupo relacionada ao Banco Master” e que sua atuação se limita à representação de publicidade dentro das normas.
A Banca Digital disse que foi procurada para divulgar conteúdo sobre o Banco Master, mas declinou o convite, e que a postagem do @Festadafirma “foi um post orgânico sobre um tema pertinente aos tratados na página”.
A Polícia Federal abriu uma apuração inicial sobre o bombardeio digital, que pode evoluir para inquérito se forem comprovadas irregularidades, e Daniel Vorcaro foi intimado a prestar depoimento no dia 27 de janeiro no âmbito das investigações sobre a tentativa de venda ao BRB.
Parlamentares procurados para participar da campanha, como o vereador Rony Gabriel, com 1,7 milhão de seguidores no Instagram, e o deputado estadual Léo Siqueira, com 592 mil seguidores, recusaram as propostas, segundo as informações apuradas.
O Banco Master e Daniel Vorcaro, por meio de assessoria, não se manifestaram sobre as acusações de coordenação da campanha, e as pessoas citadas nas abordagens não atenderam ou não responderam aos contatos da reportagem.