Brasileiros 50+ na Periferia: Mais Tempo de Vida, Trabalho e Impulso para Economias Locais

Brasileiros 50+ na Periferia: Mais Tempo de Vida, Trabalho e Impulso para Economias Locais

O brasileiro acima dos 50 anos, especialmente nas classes C, D e E, está vivendo mais tempo e permanecendo no mercado de trabalho por mais tempo. Essa realidade, muitas vezes imposta pela necessidade, faz com que essa parcela da população se torne a principal provedora em muitos lares e um motor essencial para as economias locais nas periferias.

Essa dinâmica foi evidenciada pelo estudo “Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar”, realizado pela data8. A pesquisa combinou dados quantitativos e qualitativos, incluindo entrevistas presenciais na Grande São Paulo, para traçar um panorama detalhado do comportamento, consumo, saúde, trabalho e uso de tecnologia desse grupo.

Os resultados apontam para uma geração que, apesar de envelhecer com menos recursos e suporte social, mantém a economia em movimento. Eles são os pilares financeiros de suas famílias e comunidades, demonstrando resiliência e importância econômica, conforme revelam os dados coletados. A pesquisa foi divulgada recentemente, trazendo à tona a complexa realidade desses cidadãos.

Aposentadoria Longe de Ser o Fim da Jornada Laboral

A aposentadoria, para a maioria dos brasileiros com mais de 50 anos das classes C, D e E, não significa o fim do trabalho. Apenas 3 em cada 10 cidadãos deste perfil têm a aposentadoria como principal fonte de renda. O estudo indica que 34% têm o benefício previdenciário como maior renda familiar, mas a grande maioria continua ativa profissionalmente.

Entre os aposentados da classe D, impressionantes 52% seguem no mercado de trabalho. O trabalho autônomo se destaca como a principal modalidade, representando 41% desses indivíduos, enquanto apenas 2% possuem acesso à previdência privada. Isso demonstra a forte necessidade de complementar a renda para a subsistência.

Poder de Consumo e Sustentação da Economia Local

Apesar de uma renda média mensal baixa, estimada em cerca de R$ 1.600 para as classes C e D (em contraste com R$ 7.800 nas classes A e B), o grupo de brasileiros 50+ nas periferias movimenta aproximadamente R$ 180 bilhões em suas comunidades. “Os dados apontam para uma geração que mantém a economia girando enquanto envelhece com menos saúde, renda e proteção social”, destaca o estudo.

Adriana de Queiroz, administradora pública e coordenadora do levantamento, ressalta que o dinheiro nessas comunidades circula intensamente, totalizando cerca de R$ 300 bilhões anualmente. “São os mais velhos que têm sustentado essa economia, mesmo sem ter renda alta ou algum patrimônio maior”, afirma. Ela também aponta que 15% desse público não tem acesso a nenhum produto financeiro, nem mesmo ao crédito consignado.

O Perfil da Velhice nas Periferias: Mulheres, Pretos, Pardos e a Força da Fé

O estudo revela que entre as pessoas acima de 50 anos das classes C e D, 55% são mulheres, percentual que sobe para 59% na classe D. Cerca de 70% se autodeclaram pretas ou pardas, e 43% auxiliam financeiramente filhos e netos. A fé, especialmente a evangélica, organiza o cotidiano de 31% desse grupo, fornecendo um senso de comunidade e valores.

Adriana de Queiroz descreve o envelhecimento nas periferias brasileiras como tendo um rosto específico: mulheres, pretas e pardas, que frequentemente vivem com filhos e netos, sustentando múltiplas gerações. Muitas se sentem solitárias, encontrando apoio na religião ou no entorno social, e não necessariamente na família, cujos membros também trabalham. “Elas deveriam estar ganhando de volta tudo o que deram para a sociedade”, lamenta.

Histórias de Vida: Trabalho e Propósito Após os 50

Exemplos como o de Ruth Baili Leite, 77 anos, aposentada há mais de três décadas, que cuida da neta enquanto os pais trabalham, ilustram a importância desses idosos. Ruth, que trabalhou 28 anos na Volkswagen e continuou ativa por mais de 20 anos após a aposentadoria, afirma: “Trabalhar é vida. Você vê gente, conversa com gente, é muito melhor”.

Maria da Graça Genézio, 73 anos, encontrou no trabalho como esteticista uma forma de manter o vínculo com suas clientes após se aposentar. Ela montou seu próprio estúdio em casa, em Osasco (SP), e demonstra o apego e a satisfação que o trabalho proporciona. Jesus de Paula, 80 anos, e Helena Santos, 79 anos, também seguem ativos. Jesus dá aulas de violão e viola, enquanto Helena revende roupas de brechó, encontrando prazer em suas atividades.

Essas histórias mostram que, para muitos brasileiros acima de 50 anos nas periferias, o trabalho vai além da necessidade financeira, representando uma fonte de propósito, socialização e bem-estar, mesmo diante de desafios como menor acesso a saúde e proteção social.

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