O episódio envolvendo o ataque dos EUA à Venezuela força o Brasil a navegar entre princípios históricos da sua diplomacia e a necessidade de manter canais com Washington.
O governo terá de agir com estratégia para não fechar o diálogo com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que tenta reafirmar sua posição como maior economia da América Latina.
Essa tensão tem ainda um forte componente doméstico, porque o tema tende a alimentar a oposição e impactar a campanha eleitoral, conforme informação divulgada pelas fontes consultadas.
Desafio diplomático e necessidade de estratégia
A professora Marsílea Gombata avalia que a situação exigirá muita habilidade diplomática do governo, e que o Brasil terá de agir de forma estratégica para não fechar os canais de diálogo com os EUA.
Para manter espaço de atuação, o país precisa conciliar a defesa da soberania venezuelana com a tradição brasileira de mediação, não interferência e defesa da autonomia dos Estados.
Regiane Bressan, professora de relações internacionais na Unifesp, adverte, “O Brasil deve apoiar a soberania e autonomia venezuelana, mas com muita cautela, porque esse é um assunto que dá munição e combustível à oposição”, o que reforça a necessidade de manobra diplomática cuidadosa.
Impacto eleitoral e riscos políticos
O tema tem peso eleitoral, e pode ser explorado pela oposição, como ocorreu na campanha de 2022, quando, segundo relatos, bolsonaristas tacharam Lula como defensor de Maduro e da ditadura venezuelana.
O cientista político Leandro Consentino, do Insper, resume o custo político, “Lula paga um preço pelo alinhamento ideológico que tem com a Venezuela”, sinalizando que críticas ao regime venezuelano precisam ser calibradas.
Denilde Holzhacker, da ESPM, observa, “Essa situação gera um ambiente de cautela para o governo”, porque postura excessivamente alinhada pode reduzir o apoio interno, e postura muito crítica pode fragilizar a tradição de mediação brasileira.
Como Lula tem calibrado o discurso
Em episódios anteriores, a popularidade de Lula sofreu ao tratar do tema, por exemplo quando afirmou que existia democracia na Venezuela.
Nos últimos meses, o presidente evitou reconhecer o resultado das últimas eleições venezuelanas e cobrou do governo Maduro mais transparência, buscando um tom menos complacente, e tentando reduzir o custo político doméstico.
Especialistas apontam que o presidente não pode se arriscar muito, e terá de levar em conta o cálculo político, mas também não pode deixar de se posicionar, porque isso conflita com o histórico da diplomacia brasileira.
Perspectivas e atenção para os próximos passos
O Brasil deverá manter diálogo com os EUA, enquanto tenta preservar canais com Caracas, em um equilíbrio frágil entre pressão externa e sensibilidade eleitoral interna.
Nos próximos dias, as palavras e gestos do Itamaraty e do próprio presidente serão monitorados, porque deverão indicar se o governo opta por intensificar mediação, endurecer postura, ou buscar um caminho intermediário para minimizar riscos políticos.
Em suma, o ataque dos EUA à Venezuela coloca a diplomacia de Lula em um teste de habilidade estratégica, com implicações diretas para a política interna e para o papel internacional do Brasil.