Conselho do São Paulo aprova impeachment de Julio Casares e abre crise no clube; vice assume interinamente

Julio Casares afastado da presidência do São Paulo: Conselho Deliberativo vota pelo impeachment em meio a escândalos

O Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube deu um passo decisivo nesta sexta-feira (16) ao aprovar o afastamento de Julio Casares da presidência do clube. Em uma votação acirrada, 188 conselheiros se posicionaram contra a permanência de Casares no cargo, enquanto apenas 45 votaram pela rejeição do pedido de impeachment. Dois votos foram em branco.

Este desfecho representa o ápice de um processo que culminou com o derretimento do capital político de Casares, fragilizado por uma série de escândalos que abalaram a gestão do clube. O vice-presidente, Harry Massis Junior, assume interinamente a presidência, enquanto o futuro de Casares ainda depende de uma assembleia geral com os sócios.

O pedido de destituição, protocolado em dezembro, tem como cerne a suspeita de uso irregular de camarotes do Morumbi durante shows realizados no estádio. A divulgação de áudios pelo site ge.com em dezembro levantou indícios de um suposto esquema de venda clandestina de ingressos de camarotes pertencentes à presidência em dias de eventos musicais.

Escândalos e protestos marcam a gestão de Casares

Após a divulgação dos áudios, Mara Casares, então diretora feminina, cultural e de eventos e ex-esposa do presidente, e Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto do futebol de base, se afastaram de seus respectivos cargos. A tensão foi palpável durante a sessão do Conselho, com faixas estendidas nas ruas em frente ao Morumbi, chamando Mara de “ratazana” e Douglas de “ladrão”.

Torcedores organizados também fizeram sua voz ser ouvida através de um carro de som, entoando xingamentos contra Casares e pressionando pela realização da reunião. As manifestações deixaram claro o descontentamento de parte da torcida e dos conselheiros com a situação atual do clube.

Investigações policiais e movimentações financeiras sob escrutínio

Paralelamente às questões internas do clube, a Polícia Civil já vinha conduzindo inquéritos com frentes de investigação distintas. Uma delas apura supostas irregularidades no departamento de futebol, enquanto outra se concentra nas contas bancárias do São Paulo Futebol Clube e do próprio Julio Casares. A Polícia Civil investiga, por exemplo, o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro nas contas pessoais do dirigente.

Outra linha de investigação busca esclarecer a realização de 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões. Os advogados de Casares, Daniel Bialski e Bruno Borragine, afirmaram que as movimentações financeiras apontadas em um relatório do Coaf “têm origem lícita e legítima, compatível com a evolução da capacidade financeira” do dirigente.

A defesa alega que, antes de assumir a presidência do São Paulo, Casares ocupou cargos de alta direção na iniciativa privada com remuneração elevada. Segundo os advogados, a origem dos recursos será esclarecida com a apresentação de documentos e declarações fiscais durante as investigações.

Harry Massis Junior assume interinamente em um momento delicado

Com o afastamento imediato de Julio Casares, o vice-presidente Harry Massis Junior, 80 anos, assume a presidência de forma interina. Empresário, Massis integrou a gestão de Casares em seu primeiro triênio (2021-2023) e também na chapa reeleita para o mandato atual (2024-2026). Ele faz parte do grupo político Vanguarda, que recentemente deixou a coalizão de apoio a Casares e votou a favor do impeachment.

Em suas primeiras declarações, Massis expressou a dificuldade do momento: “Hoje não é um dia simples para o nosso clube. É um dia de responsabilidade. Assumo a presidência com muito respeito à história dessa instituição e, principalmente, à torcida, que é o maior patrimônio que nós temos.” Ele ressaltou a necessidade de tratar as investigações em andamento com seriedade, calma e respeito às instituições e ao direito de defesa.

“Estou triste. Não era isso que eu queria. O São Paulo não merece o que aconteceu. Nunca gostaria de ter assumido assim”, acrescentou o presidente interino, demonstrando a complexidade da situação.

Próximos passos: Assembleia Geral definirá o futuro da presidência

O presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres, agora tem o dever de convocar uma Assembleia Geral em até 30 dias. Nesta assembleia, os sócios do clube terão a palavra final sobre o afastamento de Julio Casares. A reunião do Conselho Deliberativo desta sexta-feira ocorreu de forma híbrida, após uma liminar da 3ª Vara Cível do Butantã autorizar o formato presencial e online.

A decisão judicial também estabeleceu que seriam necessários 170 votos para a destituição do presidente. A juíza responsável não identificou conflito entre os artigos 58 e 112 do Estatuto Social do São Paulo, determinando que, embora fosse exigido quórum mínimo de 75% (191 conselheiros) para a realização da reunião, apenas dois terços dos votos favoráveis seriam necessários para o afastamento. Atualmente, o Conselho Deliberativo é composto por 255 membros, com 254 aptos a votar em um sistema de voto secreto.

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