De Nova York a Buenos Aires: A Incrível Jornada do Pingue-Pongue e a Busca pelo “Propósito” Sul-Americano

O Legado de Marty Reisman e a Versão Sul-Americana no Pingue-Pongue

O filme “Marty Supreme”, que recentemente chegou aos cinemas, busca retratar a vida intrigante de Marty Reisman, uma figura ímpar do tênis de mesa americano dos anos 1950. Embora a produção cinematográfica não tenha alcançado as expectativas de premiação, a história de Reisman, um nova-iorquino com uma autoconfiança peculiar e um talento inato para o esporte, é inegavelmente digna de cinebiografia.

Reisman, que viveu de 1930 a 2012, não seguiu o caminho tradicional. Sua educação principal veio das ruas e das mesas de pingue-pongue, onde aprendeu a jogar a dinheiro desde os 12 anos. O Lawrence’s Broadway Table Tennis Club foi seu verdadeiro templo, e aos 14, já se sustentava com o esporte, jogando até altas horas da madrugada. Sua autobiografia, publicada nos anos 1970, revela um homem que priorizou a habilidade sobre os livros.

A trajetória de Reisman, repleta de exibições circenses e um estilo de jogo único, o levou a excursionar com os Harlem Globetrotters entre 1949 e 1951. Em 1952, esteve perto de conquistar o título mundial na Índia, mas foi surpreendido por Hiroji Satoh, um japonês que revolucionou o esporte com a introdução da raquete de borracha, uma técnica que se tornaria dominante.

Agora, no cenário sul-americano, surge Hernán Reig, um argentino de 55 anos, que compartilha semelhanças notáveis com Marty Reisman. Embora não seja um profissional de tênis de mesa, Reig abraçou o esporte com paixão após uma carreira multifacetada nas artes visuais, fotojornalismo e música popular. O pingue-pongue se tornou seu norte, uma forma de dar sentido à sua jornada.

Pingue-Pongue Como Arte e Encontro Social na América do Sul

O amor de Hernán Reig pelo pingue-pongue o impulsionou a participar de competições no Paraná e no Paraguai. Mais do que a disputa, ele cultiva a união em torno do esporte, organizando encontros regulares em Buenos Aires. Desde antes da pandemia, um centro cultural na capital argentina se transforma em palco para apresentações musicais e partidas animadas de pingue-pongue, criando uma atmosfera vibrante e comunitária.

Em São Paulo, Reig apresentou ao autor deste texto um lado da cidade desconhecido, guiando-o por locais emblemáticos para a prática do esporte. No clube Piratininga, próximo ao Largo da Batata, em Pinheiros, a cena era de uma pequena multidão dedicada ao pingue-pongue, remetendo à efervescência da Manhattan de Reisman, com a diferença de um ambiente menos focado no jogo de apostas, o “hustler”.

Assim como Marty Reisman, Hernán Reig sempre demonstrou pouca afinidade com o mundo corporativo. No início dos anos 2000, teve uma passagem flexível pela loja Objetos Encontrados, de um amigo em Palermo, período em que se dedicou à criação de “ready mades” visuais inspirados em Duchamp, comercializando suas obras no local.

A Busca pelo “Propósito” Para Além do Mundo Corporativo

O conceito de “propósito”, muitas vezes cooptado de forma questionável pelas corporações, é abordado de maneira profunda no filme “Marty Supreme”. O personagem de Timothée Chalamet, inspirado em Reisman, questiona essa ideia, sugerindo que a busca por um propósito definido pode ser, na verdade, uma maldição, um destino preestabelecido, quase como em uma tragédia grega.

Essa reflexão ressoa na vida de Hernán Reig. Em seu pequeno apartamento no centro de Buenos Aires, ele demonstrou a paixão pelo pingue-pongue de forma singela, ensinando as filhas do autor a jogar. A mesa improvisada era o próprio chão de madeira do apartamento, e as raquetes, semelhantes às usadas por Hiroji Satoh, evocavam a essência do esporte, longe de qualquer glamour ou formalidade.

A história de Marty Reisman e a figura de Hernán Reig nos convidam a repensar a busca por sentido na vida. Em um mundo cada vez mais focado em produtividade e metas corporativas, o pingue-pongue, para eles, representa mais do que um esporte. É um refúgio, uma forma de expressão e uma comunidade, uma maneira autêntica de viver e encontrar um **propósito** genuíno, longe das amarras do “mundo lá fora”. Conforme relatado em matérias recentes, essa perspectiva ganha força em tempos de incerteza.

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