Desemprego em Mínima Histórica Ofusca Realidade: Desperdício de Mão de Obra em Dois Dígitos Persiste no Brasil

Desemprego em Mínima Histórica Ofusca Realidade: Desperdício de Mão de Obra em Dois Dígitos Persiste no Brasil

A taxa de desemprego no Brasil alcançou um marco histórico, apresentando o menor índice já registrado. No entanto, essa conquista isolada pode mascarar uma realidade mais complexa e persistente no mercado de trabalho: o desperdício de mão de obra, ainda presente em percentuais de dois dígitos.

Economistas alertam que a queda na taxa de desocupação, embora positiva, não deve ofuscar outros indicadores importantes. A taxa de subutilização, que mede de forma mais abrangente a ociosidade da força de trabalho, continua em patamares elevados, sinalizando que muitos brasileiros ainda não estão aproveitando todo o seu potencial produtivo.

Essa métrica mais ampla, que engloba desde pessoas que desistiram de procurar emprego até aquelas que trabalham menos horas do que gostariam, funciona como um termômetro crucial para entender as deficiências estruturais do mercado. Conforme dados recentes, a subutilização, apesar de também ter atingido sua mínima histórica, ainda se mantém em 13,4%, um número que merece atenção.

O Que Revela a Taxa de Subutilização

A taxa de subutilização, que no trimestre encerrado em dezembro registrou 13,4%, engloba diferentes grupos de trabalhadores em situação de ociosidade. Dentre os 15,3 milhões de brasileiros subutilizados, estão os 5,5 milhões de desempregados, que buscam ativamente por vagas. Há também os 4,5 milhões de subocupados por insuficiência de horas, que trabalham menos de 40 horas semanais e desejam jornadas maiores.

Um terceiro grupo significativo é a força de trabalho potencial, com 5,3 milhões de pessoas. Este grupo inclui os desalentados, que desistiram de procurar emprego, e aqueles que, por motivos como doença ou cuidado familiar, não puderam assumir novas vagas mesmo após a busca. Essa métrica, segundo o pesquisador João Mário de França, do FGV Ibre, é essencial para não mascarar informações sobre o mercado.

A subutilização captura aspectos mais profundos e estruturais da economia brasileira, como uma produtividade média mais baixa e uma informalidade mais acentuada quando comparada a outros países. O economista Ely José de Mattos, da PUCRS, ressalta que, embora a taxa venha caindo, os 13% em dois dígitos ainda chamam a atenção, indicando problemas mais arraigados na estrutura do emprego.

Desigualdades Regionais Marcantes no Desperdício de Mão de Obra

As disparidades regionais na subutilização da mão de obra no Brasil são evidentes. No quarto trimestre de 2025, o Nordeste apresentou a maior taxa, com 22,6% de sua força de trabalho subutilizada, mais que o triplo da taxa encontrada no Sul, que foi de 7,2%. O Norte registrou 15,7%, seguido pelo Sudeste com 11% e o Centro-Oeste com 8,6%.

Em termos estaduais, seis estados nordestinos registraram taxas de subutilização acima de 20%: Piauí (27,8%), Bahia (25,4%), Alagoas (25,1%), Sergipe (24,3%), Maranhão (22,8%) e Pernambuco (21,9%). Por outro lado, oito estados apresentaram percentuais inferiores a 10%, a maioria localizada nas regiões Sul e Centro-Oeste, como Santa Catarina (4,4%) e Mato Grosso (6,1%).

Essas diferenças regionais, segundo o economista Alysson Portella, estão ligadas a processos históricos de desenvolvimento, com regiões como o Nordeste enfrentando maiores desafios em áreas como educação e industrialização. A informalidade e a dificuldade de requalificação profissional diante das transformações tecnológicas também contribuem para o cenário de desperdício de mão de obra.

Capitais Refletem o Cenário Nacional de Subutilização

Nas capitais, o cenário de subutilização também exibe desigualdades. Recife liderou o ranking com a maior taxa de subutilização no quarto trimestre de 2025, atingindo 19,9%. Aracaju (18,4%) e Salvador (18,1%) também apresentaram índices elevados, refletindo as dificuldades encontradas em grandes centros urbanos de algumas regiões.

Em contrapartida, Goiânia (5,5%), Campo Grande (5,9%) e Florianópolis (6%) registraram os menores índices de desperdício de mão de obra entre as capitais. Essas diferenças reforçam a necessidade de políticas públicas direcionadas e adaptadas às realidades específicas de cada região do país.

A análise conjunta da taxa de desemprego e da taxa de subutilização, ambas divulgadas pelo IBGE, oferece um diagnóstico mais completo da saúde do mercado de trabalho brasileiro. Enquanto a queda no desemprego é um sinal positivo, a persistência da subutilização em dois dígitos aponta para desafios estruturais que exigem atenção contínua e soluções aprofundadas para garantir a plena inserção e o aproveitamento do potencial de todos os trabalhadores.

Leia mais

PUBLICIDADE