Dia da Libras: Surdo e Intérprete Revelam os Dois Lados da Inclusão e a Importância de Aprender Sinais
Em Marília (SP), Diogo Leonardo, surdo, e Gabriel Andreasi, intérprete de Libras, compartilham suas vivências sobre a inclusão. A data, celebrada nesta sexta-feira (24), reforça a relevância da Língua Brasileira de Sinais e a necessidade de maior acessibilidade na sociedade.
Imagine um mundo onde suas palavras não são compreendidas, transformando tarefas cotidianas em verdadeiros desafios. Essa é a realidade para muitas pessoas surdas, que enfrentam barreiras de comunicação em um cotidiano nem sempre preparado para recebê-las.
Para dar visibilidade a essa luta e celebrar o reconhecimento oficial da Língua Brasileira de Sinais, o Dia Nacional da Libras é uma oportunidade para refletir sobre os avanços e os obstáculos ainda existentes. Conforme informação divulgada pelo g1, conversamos com um surdo e um intérprete para entender as duas faces da inclusão.
A Jornada de Diogo: Superando Barreiras com a Força da Libras
Diogo Leonardo, pedagogo de 35 anos e surdo desde o nascimento, vê o Dia da Libras como um marco de conquista, mas também um chamado à reflexão sobre acessibilidade e respeito. Sua trajetória acadêmica e profissional, marcada por formações em Pedagogia e cursos técnicos, enfrentou desafios como a falta de intérpretes e a escassez de materiais adaptados.
“O maior desafio foi a acessibilidade, principalmente a falta de intérpretes em alguns momentos e materiais nem sempre adaptados. O ensino remoto também foi uma grande barreira. Também enfrentei desafios na comunicação, mas consegui superar com esforço e dedicação”, relatou Diogo ao g1. Mesmo sendo oralizado e tendo aprendido Libras apenas aos 18 anos, ele enfatiza como a língua de sinais fortaleceu sua valorização pela comunicação inclusiva.
A Libras é a base de sua vida, inclusive no amor. Recentemente, Diogo pediu sua namorada, Ana Carolina, em namoro no Mineirão. Ana, professora de Libras e também surda, compartilha com ele essa importante forma de comunicação.
Gabriel Andreasi: A Ponte Entre Mundos Através da Interpretação
Gabriel Andreasi, com 10 anos de experiência como intérprete de Libras em Marília, viu na profissão uma forma de conectar pessoas. Inspirado por tios surdos, ele decidiu atuar como intérprete para facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes e apoiar a comunidade surda.
Atualmente, Gabriel trabalha em uma escola estadual, onde sua mediação é crucial para o acesso dos estudantes surdos ao aprendizado. Ele recorda com emoção um momento com uma aluna: “Um dia ela escreveu meu nome na capa do caderno e desenhou vários corações em volta. Naquele momento, eu me emocionei demais, porque ali não era só um gesto, era um vínculo, uma conexão. E é isso que dá sentido para tudo”, conta.
Apesar dos avanços, Gabriel aponta a falta de profissionais qualificados como um grande obstáculo na inclusão escolar. “Um dos principais problemas que vejo hoje é a falta de profissionais realmente preparados. Muitos não dominam a Libras, não têm fluência e, principalmente, não têm vivência com a comunidade surda. E isso faz toda a diferença”, pontua.
A Emoção na Interpretação de Músicas em Libras
Além do ambiente escolar, Gabriel também leva a acessibilidade a eventos e shows, interpretando músicas em Libras. Ele descreve a experiência como um espetáculo à parte, onde mãos em movimento e expressões faciais traduzem sentimentos e a essência da canção.
“Quando estamos ali, junto com o artista, a gente não está só traduzindo, a gente vive aquele momento. Sentimos a energia do público, a emoção do show, e tudo isso precisa aparecer na nossa sinalização, nas expressões faciais e corporais. Cada detalhe importa, porque é assim que a emoção chega até a pessoa surda”, comenta Gabriel.
Libras no Brasil: Um Olhar Sobre os Dados e Oportunidades
A Libras foi oficialmente reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no Brasil em 2002, pela Lei nº 10.436. É importante ressaltar que a Libras não é universal, cada país possui sua própria língua de sinais. Segundo o IBGE, o Brasil tem cerca de 2,6 milhões de pessoas com deficiência auditiva.
Para quem deseja aprender Libras, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) oferece cursos gratuitos e online. Em Marília, a Central de Libras proporciona atendimento presencial e por videochamada, facilitando o acesso de pessoas surdas aos serviços públicos. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.