Economia de Cuba em colapso, pior crise dos 67 anos desde a Revolução, com apagões, falta de alimentos, racionamento inútil e êxodo após perda do petróleo venezuelano

A vida cotidiana em Cuba mudou de forma abrupta nos últimos anos, com filas longas, falta de produtos básicos e serviços públicos cada vez mais precários.

Moradores relatam apagões extensos, escassez de alimentos e remédios e uma coleta de lixo irregular, enquanto salários em moeda local viraram insuficientes para comprar itens básicos.

O quadro combinou fatores externos e internos, e levou a uma saída recorde de cidadãos do país, em um cenário que especialistas definem como o pior desde a Revolução, conforme informação divulgada pelo g1.

Colapso da rede de proteção social e impacto na população

O colapso atinge a rede de proteção social que os sucessivos governos cubanos tanto destacavam, e a sensação entre moradores é de perda de segurança básica.

Como descreveu Omar Everleny Pérez, 64, economista de Havana, “Eu, que nasci e vivo aqui, digo a você: nunca esteve tão ruim como agora, porque muitos fatores se juntaram”.

Além do desabastecimento nas lojas estatais, o cartão de racionamento que antes garantia arroz e feijão por mês passou a ser praticamente inútil, porque raramente há produtos disponíveis.

Salários típicos, em moeda local, ficam em torno de 3.000 pesos, menos de US$ 7, enquanto uma cartela com 30 ovos custa 3.600 pesos, cerca de US$ 8, o que evidencia a perda do poder de compra.

Energia, transporte e saúde, serviços básicos em colapso

Os apagões tornaram-se parte da rotina, e em áreas fora da capital a energia pode faltar por até 20 horas por dia, enquanto em bairros de Havana moradores falam em cortes de 14, 15 horas.

A costureira Odalis Reyes, 56, afirmou que “Sim, muitas horas sem eletricidade, muitas, muitas, 14, 15 horas” e descreveu o medo de perder alimentos por falta de refrigeração.

A escassez de combustíveis também afeta transporte e coleta de lixo, favorecendo surtos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya, e hospitais muitas vezes exigem que familiares levem insumos básicos.

O barman e motorista Yoan Nazabal, 32, contou que a esposa precisou levar material próprio para uma cesariana, “Tivemos que levar nosso próprio cateter”, e lamentou que, apesar de o sistema de saúde ter sido histórico motivo de orgulho, “nossos médicos são de primeira linha, mas não têm recursos para fazer seu trabalho”.

Perda do apoio venezuelano, sanções e má gestão econômica

Analistas apontam uma combinação de fatores: políticas dos Estados Unidos, perda de apoio venezuelano e falhas de planejamento e gestão internas.

Durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela enviava cerca de 90 mil barris diários de petróleo à ilha, e no último trimestre de 2025 o volume caiu para 35 mil, situação que afetou fortemente o abastecimento cubano.

O presidente Donald Trump chegou a afirmar que “Cuba está caindo de vez”, ao descartar a necessidade de ação militar, e o governo cubano por sua vez atribui parte dos problemas ao embargo comercial dos EUA, e sanções que, segundo Havana, agravaram a capacidade de negociar no mercado internacional.

O próprio líder cubano reconheceu dificuldades econômicas, e Miguel Díaz-Canel afirmou que “Corrigir distorções e reanimar a economia não é um slogan”, ao descrever a necessidade de garantir salários suficientes, comida na mesa e o funcionamento de serviços básicos.

Consequências sociais e perspectivas

O colapso econômico desencadeou um êxodo sem precedentes, com cerca de 2,75 milhões de cubanos deixando o país desde 2020, segundo o demógrafo Juan Carlos Albizu-Campos, e a população real pode estar mais próxima de 8,25 milhões do que dos 9,7 milhões oficiais.

Setores chave como níquel e turismo também sofrem, com produção de energia 25% menor do que em 2019 e o turismo com dificuldade para retomar níveis pré-pandemia, quando cerca de 4 milhões de visitantes chegavam anualmente.

Especialistas apontam que micro, pequenas e médias empresas, legalizadas em 2021, viraram uma tábua de salvação, mas os preços nessas lojas em moeda forte tornam os produtos inacessíveis para quem recebe salário em pesos locais.

Em resumo, a Economia de Cuba enfrenta um desafio profundo, com queda do PIB, inflação, apagões e falta de insumos, e a combinação de choques externos e problemas internos torna incerta a recuperação no curto prazo.

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