Economia de Cuba em colapso, pior em 67 anos: apagões de 14, 15 horas, queda do PIB, perda do petróleo venezuelano e êxodo de 2,75 milhões

A economia de Cuba atravessa um dos piores momentos desde a Revolução, com um colapso amplo da rede de proteção social que antes era um cartão de apresentação do regime. Apagões longos, falta de combustíveis e remédios e a queda da produção agravam o cotidiano dos cubanos.

Moradores relatam filas imensas por gasolina, entregas racionadas que não chegam e hospitais que exigem materiais básicos. O quadro é tão grave que parte da população voltou a cozinhar com lenha, e a produção de energia está 25% menor do que em 2019.

O leitor encontrará a seguir números, relatos e análises sobre por que a economia de Cuba entrou em recessão prolongada, quem são os principais afetados e quais fatores convergiram para essa crise, conforme informação divulgada pelo g1.

O retrato do colapso e relatos do dia a dia

Omar Everleny Pérez, 64, economista de Havana, disse, “Eu, que nasci e vivo aqui, digo a você: nunca esteve tão ruim como agora, porque muitos fatores se juntaram”. Essa avaliação resume a percepção generalizada entre especialistas e moradores.

Odalis Reyes, 56, costureira que mora em Havana Velha, descreve os apagões como rotina, “Sim, muitas horas sem eletricidade, muitas, muitas, 14, 15 horas”, e fala do medo de perder alimentos por falta de refrigeração. Já Yoan Nazabal, 32, contou que sua esposa, que passou por cesariana, teve de levar um cateter para o hospital, porque faltavam materiais.

Os cartões de racionamento, que antes garantiam arroz e feijão, tornaram-se praticamente inúteis, porque não há produtos nas lojas estatais. Ao mesmo tempo, lojas privadas vendem alimentos importados, mas a disparidade entre preços e salários é enorme, agravando a crise da economia de Cuba.

Dados e cifras que mostram a gravidade

O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que, “ao fim do terceiro trimestre do ano passado o PIB havia recuado mais de 4%”, ao mesmo tempo em que a inflação disparava e as entregas de alimentos racionados não estavam sendo cumpridas.

Especialistas citam ainda números de energia e migração que ilustram o colapso, a produção de energia é 25% menor do que em 2019, e cerca de 2,75 milhões de cubanos deixaram o país desde 2020, segundo o demógrafo Juan Carlos Albizu-Campos. A população oficial é de 9,7 milhões, mas Albizu-Campos estima que o número real seja mais próximo de 8,25 milhões.

No setor petrolífero, a dependência de Havana em relação à Venezuela caiu drasticamente, segundo análises citadas, no governo de Hugo Chávez a Venezuela enviava cerca de 90 mil barris diários, e no último trimestre de 2025 esse volume caiu para 35 mil. A redução das remessas de petróleo pressiona ainda mais a economia de Cuba.

Impactos nos serviços, saúde e produção

Apagões prolongados prejudicam indústrias essenciais, como a de níquel, porque fábricas param quando falta energia. O turismo, outro pilar da economia de Cuba, não voltou aos níveis pré-pandemia, passando de 4 milhões de visitantes para algo perto de 2 milhões, segundo economistas citados.

A escassez de combustível tornou a coleta de lixo esporádica, favorecendo surtos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya. Medicamentos se tornaram quase impossíveis de achar sem ajuda do exterior, e hospitais exigem que pacientes levem materiais básicos.

Sobre salários e preços, a remuneração mensal típica foi citada em 3.000 pesos, menos de US$ 7, enquanto uma cartela com 30 ovos custa 3.600 pesos, cerca de US$ 8. Essa disparidade mostra que mesmo com alimentos disponíveis em lojas privadas, boa parte da população não tem poder de compra.

Causas, respostas do governo e prognóstico

O regime atribui parte dos problemas ao embargo dos Estados Unidos, que segundo Havana estrangula sua capacidade de negociação no mercado internacional. Autoridades também apontam sanções que teriam agravado o quadro, embora alimentos e medicamentos sejam oficialmente excluídos de restrições.

Analistas, porém, destacam que a má gestão e o planejamento inadequado contribuíram fortemente para a crise da economia de Cuba. Tentativas de expandir a iniciativa privada esbarraram em regulações rígidas, e as micro, pequenas e médias empresas legalizadas em 2021 viraram uma tábua de salvação, mas não substituem políticas macroeconômicas eficazes.

Díaz-Canel disse que “corrigir distorções e reanimar a economia não é um slogan”, que é uma batalha concreta pela estabilidade da vida cotidiana, para que salários sejam suficientes, para que haja comida na mesa, para que acabem os apagões, e para que serviços básicos funcionem. Mesmo assim, permanece a dúvida sobre o impacto total da perda do apoio venezuelano e sobre como a economia de Cuba sairá dessa recessão prolongada.

Enquanto isso, relatos das ruas, cifras de queda do PIB, menos energia e o êxodo recorde destacam que a crise é multifacetada, e que a recuperação exigirá mudanças profundas nas políticas internas e nas relações externas da ilha.

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