A pergunta que abre esta discussão é retórica, claro. Poucos entusiastas do futebol acreditam que a tática seja um traço exclusivo do futebol europeu. No entanto, persiste a ideia de que as vitórias brasileiras em Copas do Mundo se explicam apenas pelo brilho individual de seus jogadores, como se o sucesso fosse fruto de genialidades isoladas.
Os 24 anos de jejum abriram espaço para clichês, como aquele que encontramos frequentemente na arquibancada ou na internet: “desde que começamos a copiar o taticismo europeu, nunca mais ganhamos”. Essa visão, porém, ignora a rica história tática do futebol brasileiro.
Ironicamente, a correlação mais próxima da realidade é a oposta. O Brasil deixou de chegar a finais de Copas depois de ter deixado de estar na vanguarda tática de seu tempo, posição que ocupou por décadas. Conforme informações divulgadas, a ausência de comunicação entre bibliografias sobre tática, com histórias escritas em inglês, alemão, italiano e holandês raramente mencionando o Brasil, a não ser como lar do talento individual, contribui para essa percepção equivocada.
O Mito da Espontaneidade Brasileira Contra a Geometrização Europeia
Na crônica e na história oral produzidas pelo Brasil sobre seu futebol, a tática praticamente não é discutida. Ela não recebe o devido crédito pelas vitórias, que são atribuídas aos gênios individuais, como se eles operassem soltos, fora de um padrão estratégico. Esse mito é antigo, remontando a 1938, quando Gilberto Freyre explicava o bom desempenho na Copa da França pela “espontaneidade individual, rebelde a excessos de ordenação interna, a excessos de uniformização, de geometrização, de estandardização”.
O futebol brasileiro que vencia tchecos e poloneses em 1938 já estava completamente influenciado pela escola húngara, algo que Freyre desconhecia ou omitia. Ele complicaria a oposição simplista entre espontaneidade brasileira e geometrização europeia. O húngaro Eugenio Marinetti (Jeno Medgyessy) havia revolucionado as histórias de clubes como Botafogo, Fluminense, Atlético Mineiro e Palmeiras, com métodos de treinamento e variações táticas que foram decisivas para a Seleção de 1938.
A Inovação Tática Brasileira nas Copas de 1958 e 1962
Em 1958 e 1962, a inovação tática foi tão importante que causa estranheza a ausência de um livro dedicado ao assunto. Após décadas de domínio global do esquema WM (3-2-2-3), o Brasil inventava a **linha de quatro defensores** e a **marcação por zona**. Ao transmitir Brasil 3 x 1 Inglaterra em 1962, o narrador da BBC, Kenneth Wolstenholme, se encantava com o que ainda lhe parecia uma inovação: “eles marcam espaços, e não homens”.
A linha de quatro permitiu ao Brasil outra inovação tática, o surgimento do **lateral atacante**, que ultrapassa o ponta. Exemplos como o argentino Marzolini e o italiano Facchetti demonstram o quão influente foi a arte inventada pelo brasileiro Nílton Santos. As limitações do 4-2-4 ocasionaram mais uma inovação, o ponta que recua e fecha o meio, arte inaugurada por Telê Santana no Fluminense e depois consagrada pela atuação de Zagallo em 1958 e 1962.
O Estudo Tático Como Chave Para o Futuro do Futebol Brasileiro
Nós não perdemos Copas porque começamos a nos preocupar com tática. É o exato oposto. O período de jejum coincide com a consolidação de uma mentalidade complacente, espontaneísta e avessa ao estudo, que defasou os técnicos brasileiros, inclusive em relação aos portugueses. A chegada de Carlo Ancelotti e o sucesso de treinadores estudiosos como Filipe Luís são alentos e sinais de que a maré pode estar mudando, resgatando o protagonismo tático do Brasil.