Uma reunião do fundo Termópilas, principal acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, foi realizada de forma remota no dia 16 de novembro, um domingo, às 15h, um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro, empresário ligado ao banco Master.
Na ata arquivada na Comissão de Valores Mobiliários, a assembleia registrou que foi “dispensada a convocação em virtude da presença da totalidade dos cotistas do fundo”, ou seja, não houve convocação com antecedência, segundo o documento público.
Na sequência dos fatos, no dia seguinte surgiram notícias sobre proposta de compra do Master, a prisão de Vorcaro pela Polícia Federal e a decisão do Banco Central de liquidar a instituição, e o banqueiro foi solto 12 dias depois, conforme informações divulgadas pela Folha.
O que a ata diz sobre alterações no regulamento
Segundo a ata da assembleia, foi aprovado um ajuste que trata especificamente de matérias da assembleia especial sobre amortização e resgate total, além de mudanças no quórum de aprovação. No texto, a deliberação aparece como “aprovou ajuste nas matérias de competência da assembleia especial no que se refere a amortização ou resgate total, bem como quórum de aprovação”.
Houve, portanto, uma reformulação no regulamento do fundo, com inclusão de detalhes sobre o procedimento de amortização, que corresponde ao pagamento a cotistas. No entanto, não é possível verificar por meio das demonstrações públicas se houve efetivamente algum resgate ou amortização naquele período, pois as demonstrações financeiras do Termópilas não foram atualizadas no site da CVM.
Patrimônio, controladores e vínculos societários
Dados da CVM indicam que o Termópilas é controlado por outro fundo de investimentos, que figura como seu único cotista, e que a identificação do beneficiário final não está disponível publicamente. As últimas informações disponíveis apontavam, em setembro de 2025, um patrimônio líquido no Termópilas em torno de R$ 934 milhões.
O Termópilas é o principal acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, empresa com capital de R$ 2,6 bilhões, ligada a Vorcaro e a seu cunhado Fabiano Zettel. Documentos da Receita Federal e mudanças societárias mostram relações entre Vorcaro, Zettel e a Super, incluindo o fato de que, até julho de 2024, Fabiano Zettel constava como diretor, e que Ana Cláudia Queiroz de Paiva, sócia de Zettel, permanece como diretora da Super.
A Super também aparece em reportagens por ter doado, em dezembro de 2024, “um apartamento de quase R$ 4,4 milhões” a uma mulher citada em operação policial de 2022 contra o tráfico de drogas, e por ser dona de uma casa de R$ 36 milhões em Brasília onde Vorcaro recebeu políticos, embora a assessoria do banqueiro afirme que ele é apenas inquilino do imóvel.
Conexões com fundos maiores e omissão de ativos
Informações enviadas à CVM em abril de 2025 indicam que o Termópilas integra a carteira de um fundo chamado Astralo 95, que tinha, naquela data, patrimônio líquido de R$ 15 bilhões. Dados atualizados referentes a dezembro de 2025 passaram a mostrar R$ 27 bilhões no Astralo 95, mas, a pedido do administrador, a identificação dos ativos foi omitida para o público em geral.
A CVM informou que é permitido ao administrador do fundo ocultar a composição da carteira por até 90 dias, com possível prorrogação autorizada pelo órgão. O Astralo 95 é um dos fundos apontados pelo Banco Central como suspeitos de integrarem o esquema investigado ligado a Vorcaro e que aparecem nas apurações sobre possível infiltração do PCC no mercado financeiro.
Respostas e lacunas de informação
A reportagem procurou a Reag, indicada na CVM como administradora do Termópilas e do Astralo 95, para perguntar se houve resgates após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco. A resposta enviada afirmou que “não interfere nos negócios de seus clientes”.
A Reag também foi alvo da operação Carbono Oculto, que investiga relações entre o setor de combustíveis, o PCC e empresas financeiras. A assessoria de Vorcaro não comentou o caso, Ana Cláudia Queiroz de Paiva não respondeu às tentativas de contato, e Fabiano Zettel também não se manifestou, de acordo com as apurações citadas.
Mesmo com a aprovação das mudanças no regulamento do fundo e a existência de indicação de vínculos societários, permanece a impossibilidade de confirmar, com base em dados públicos atualmente disponíveis, se houve retirada de recursos do Termópilas no período crítico em torno da prisão e da liquidação do banco.