Fundos de Hedge Despejam Bilhões em Títulos de Catástrofe: O Mercado de Seguros Nunca Mais Será o Mesmo

Investidores buscam lucros em riscos naturais, alterando um setor centenário.

Gestores de investimentos alternativos, incluindo fundos de hedge, estão injetando quantias sem precedentes no mercado de seguros patrimoniais. Essa movimentação está remodelando um modelo de resseguro com 180 anos de história, atraindo atenção por seu potencial de alto retorno, mas também levantando preocupações sobre a estabilidade do sistema.

As alocações em títulos de catástrofe e outros instrumentos financeiros ligados a seguros atingiram um recorde de US$ 136 bilhões no ano passado, um aumento de 18%. Essa tendência, impulsionada pelo crescimento de capital alternativo, sugere uma mudança significativa na forma como os riscos catastróficos são gerenciados e financiados globalmente.

A crescente influência de fundos de hedge e investidores institucionais no mercado de resseguros levanta questões sobre o papel futuro das resseguradoras tradicionais. A Bloomberg aponta que essa mudança promete alterar a face de um mercado cuja função primordial é fornecer cobertura estável em momentos de perdas severas, questionando se elas se tornarão cada vez menos relevantes.

O Ascensão dos Títulos de Catástrofe e o Capital Privado

A urbanização, a inflação e as mudanças climáticas têm tornado desastres naturais mais frequentes e intensos. Em resposta, as resseguradoras buscam transferir parte desse risco para os mercados de capitais. A emissão de títulos de catástrofe (cat bonds) tem sido a principal ferramenta para isso, com emissões apresentando um crescimento impressionante. John Seo, cofundador da Fermat Capital Management, acredita que esse aumento está longe de terminar.

Além dos cat bonds, o capital privado tem sido atraído para os chamados “sidecars”. Esses veículos permitem que investidores terceirizados acessem os prêmios de seguros em troca de assumir uma parcela do risco de desastres. Esse mercado quase triplicou desde 2023, chegando a cerca de US$ 18 bilhões, especialmente na cobertura de catástrofes imobiliárias, segundo a AM Best.

Empresas como a Hannover Re já estão se adaptando, estabelecendo corretoras nas Bermudas para criar carteiras personalizadas para fundos de hedge e outros gestores profissionais. Michael Eberhardt, diretor executivo da Hannover Re Capital Partners, vê isso como uma peça fundamental para alavancar a experiência em subscrição e fazer parcerias com investidores de capital terceirizado.

Riscos e Preocupações com o Novo Cenário

Apesar do crescimento, existem preocupações. A Fitch Ratings alerta que investidores em sidecars podem enfrentar perdas maiores do que detentores de cat bonds, pois esses veículos tendem a estar expostos a riscos secundários mais comuns, como tempestades de granizo e inundações. Brian Schneider, da Fitch Ratings, expressa a preocupação de que alguns investidores possam estar entrando no mercado de forma “ingênua”, sem plena compreensão desses riscos.

As resseguradoras tradicionais também sentem a erosão de seu poder de precificação, pois a oferta de capital privado supera a demanda. Ed Hochberg, da Guy Carpenter, observa que as “condições de mercado estão agora um pouco menos favoráveis”. A Twelve Securis aponta que a má compreensão de riscos e exposições pode levar a prêmios que não compensam adequadamente os riscos assumidos.

Impacto em Outros Segmentos e Alertas Regulatórios

O influxo de capital privado não se limita aos seguros patrimoniais, impactando também os ramos de vida e acidentes. Fundos apoiados pela Blackstone, por exemplo, concordaram em financiar um veículo de resseguro de aproximadamente US$ 1 bilhão para cobrir negócios de anuidades. A Blackstone também se uniu à The Fidelis Partnership e outros para lançar novos sindicatos na Lloyd’s de Londres.

Reguladores, como a Autoridade Europeia de Seguros e Pensões Complementares de Reforma (EIUPP) e o Banco da Inglaterra, emitiram alertas. A EIUPP destaca que o horizonte de investimento de curto prazo de empresas de private equity pode estar desalinhado com o compromisso de longo prazo com os segurados. O Banco da Inglaterra, por sua vez, alerta para o risco de “vendas a preço de banana” que podem desestabilizar os mercados financeiros.

O Futuro da Ressegurança na Era do Capital Alternativo

A Fitch Ratings observa que o crédito privado pode, cada vez mais, assumir o controle das decisões de capital e investimento, tradicionalmente nas mãos das resseguradoras avessas ao risco. Essa mudança representa um divisor de águas para o setor, com implicações significativas para a cobertura de riscos futuros e a estabilidade financeira global.

A S&P Global Ratings indica que as resseguradoras cobriram pouco mais de 10% das perdas seguradas por catástrofes em 2024, abaixo da média histórica de 20%. As maiores empresas do setor reduziram em mais da metade sua exposição a perdas de desastres nos últimos anos, sinalizando uma adaptação a essa nova realidade de mercado.

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