Gigantes da Tecnologia Defendem a “Escala 996”: Jornadas Exaustivas de 12 Horas Diárias São o Segredo do Sucesso ou Receita para o Burnout?

A “Cultura da Agitação”: O Preço do Sucesso na Era da IA

Em um cenário de rápida evolução da inteligência artificial, algumas empresas de tecnologia adotam a chamada “escala 996”, uma jornada de trabalho que impõe 12 horas diárias, seis dias por semana. Essa prática, que prioriza longas horas em detrimento do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, tem gerado debates acalorados sobre sua sustentabilidade e ética.

A Rilla, uma startup de IA sediada em Nova York, é um exemplo emblemático dessa cultura. Em seus anúncios de emprego, a empresa não esconde a exigência de trabalhar cerca de 70 horas semanais, buscando profissionais com “velocidade insana” e “obsessão pelo cliente”.

Essa busca por resultados rápidos e a pressão competitiva no setor de IA têm impulsionado a adoção da “cultura da agitação”. No entanto, especialistas alertam para os perigos dessa abordagem, que podem incluir sérios riscos à saúde física e mental dos trabalhadores, além de questionamentos sobre a real produtividade gerada.

Origens e Defensores da “Escala 996”

A cultura 996 ganhou notoriedade pela primeira vez na China, onde figuras como Jack Ma, fundador do Alibaba, a defenderam como um “enorme bênção” para o desenvolvimento profissional e empresarial. Richard Liu, da JD.com, também manifestou apoio, declarando que “os preguiçosçosos não são meus amigos!”.

No entanto, essa mentalidade gerou reações negativas e levou a repressões legais na China, com queixas sobre desrespeito às leis trabalhistas e jornadas excessivas. Apesar disso, a ideia persiste, com defensores como Narayana Murthy, da indiana Infosys, elogiando a adoção da escala 996 pela China.

A Corrida da IA e a Pressão por Mais Horas

A velocidade vertiginosa do desenvolvimento da inteligência artificial é um dos principais motores por trás da adoção da “escala 996” em startups de IA. Empresas buscam desenvolver e lançar seus produtos no mercado antes dos concorrentes, vendo as longas jornadas como um diferencial competitivo.

Magnus Müller, cofundador da startup alemã Browser-Use, exemplifica essa visão. Ele argumenta que construir algo “difícil” e resolver problemas complexos na área de IA exige imersão total, comparando a dedicação a um “vício” positivo. Ele busca “pessoas que sejam simplesmente viciadas, que adorem o que estão fazendo”.

Riscos à Saúde e o Limite da Produtividade

Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) associam longas jornadas de trabalho a um aumento significativo no risco de AVC e doenças cardíacas. Trabalhar 55 horas semanais ou mais, por exemplo, eleva o risco de doenças do coração em 17% e de AVC em 35%.

A produtividade também é afetada. Após um certo limite, geralmente em torno de 40 horas semanais, o desempenho começa a cair devido à fadiga física e mental. Pesquisas indicam que um funcionário trabalhando 70 horas semanais pode ter um rendimento quase igual ao de alguém que trabalha 50 horas, sugerindo que a “escala 996” pode ser contraproducente.

Alternativas e o Futuro do Trabalho

Especialistas como Deedy Das, da Menlo Ventures, criticam a crença de que longas horas de trabalho equivalem a produtividade, alertando que essa mentalidade pode alienar funcionários com família e profissionais experientes. Ele defende a ideia de “trabalhar de forma mais inteligente, não mais tempo”.

No Brasil, tramita uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para reduzir a jornada de trabalho para 36 horas semanais. No Reino Unido, um projeto-piloto de semana de quatro dias demonstrou redução de estresse e doenças entre funcionários, com manutenção da produtividade e melhora na retenção de talentos.

A “escala 996” pode ser permitida com o consentimento do funcionário em algumas legislações, como no Reino Unido. Contudo, a discussão sobre o equilíbrio entre a exigência do mercado e o bem-estar dos trabalhadores continua em pauta, com crescentes evidências de que a sustentabilidade a longo prazo reside em abordagens mais equilibradas e eficientes.

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