Huascarán: A Dívida de Gelo Que Assombrou Montanhista Por Seis Anos e o Desafio Final

Huascarán: A Dívida de Gelo Que Assombrou Montanhista Por Seis Anos e o Desafio Final

A montanha mais alta do Peru, o Huascarán, se tornou o palco de uma jornada épica para o montanhista Pedro Hauck. Após uma tentativa frustrada em 2016, marcada por uma tragédia e o fechamento da montanha, Hauck carregou consigo uma “dívida” de gelo, medo e frustração por seis longos anos. Em 2022, a oportunidade de saldar essa dívida e realizar seu sonho se apresentou, mas o caminho para o cume estava longe de ser fácil.

A decisão de encarar o Huascarán novamente foi tomada após uma temporada desafiadora na Bolívia. Com duas semanas livres, Hauck sentiu que era o momento de retornar ao Peru. As condições climáticas em 2022 eram favoráveis, com baixo risco de avalanche, algo que não ocorria todos os anos. No entanto, as mudanças climáticas transformaram a montanha, que antes era um destino comum, em um local mais perigoso, com crescentes riscos de quedas em gretas e avalanches.

A escalada foi planejada de forma totalmente autônoma, sem ajuda externa, mulas ou carregadores. Hauck e sua companheira, Maria Tereza, carregariam tudo nas costas: barraca, cordas, fogareiros, comida, sonhos e dúvidas. O peso físico das mochilas de 35 kg era, paradoxalmente, menor que o peso mental da jornada. Conforme relatado por Pedro Hauck, a cada passo em direção ao refúgio, ele sentia que caminhava não só para a montanha, mas também em direção ao passado que havia deixado congelado.

O Peso da Montanha e os Fantasmas do Passado

A aproximação foi longa e árdua. A exaustão forçou Hauck a deixar parte do peso escondido na vegetação para resgatar no dia seguinte. Ao avistar o refúgio, um convite ao descanso, a realidade se impôs com a força de uma parede de gelo: um grupo de resgate e a notícia de que um montanhista equatoriano havia caído em uma greta e não resistiu. Um dos resgatistas ainda quebrou a perna prestando socorro.

A cena, descrita como silenciosa e devastadora, abalou Hauck. A pergunta inevitável ecoou: seria preciso ir embora sem a montanha novamente? Começar uma ascensão sendo recebido pela morte testava sua coragem. A noite no refúgio, fechado ao público naquela temporada, era fria e densa. Hauck tentava se convencer da racionalidade de seguir, mas um peso emocional e angústia assombravam seus pensamentos.

A Parceria Salvadora e o Desafio da Garganta

Um presente improvável do destino chegou na forma de dois montanhistas argentinos, Cristian Rivera e Max Cavalim. Sua inteligência, experiência e bom humor dissolveram a atmosfera pesada. A parceria certa, como ressalta Hauck, pode salvar mais que qualquer equipamento. O plano foi traçado: portear carga até o Campo 1 (C1) e, de madrugada, encarar o trecho mais técnico, a famosa Garganta.

Carregar tudo montanha acima era uma penitência, um lembrete de que autonomia tem um preço, mas também a garantia de que, se o cume fosse alcançado, seria verdadeiramente deles. A Garganta, descrita como uma cascata de gelo vertical, viva e rangente, exigia escalada técnica com as pesadas cargueiras. Era crucial cruzá-la de madrugada, antes que o sol a tornasse instável.

A Nevasca e a Decisão Necessária

Após montar o C2, uma nevasca pesada cobriu o caminho, tornando a visibilidade nula e a rota perigosa. Na escuridão, diante da exaustão, incerteza e falta de energia para “tentativas e erros”, Hauck tomou a amarga decisão de retornar. Não foi fácil, nem glorioso, mas necessário. Voltaram para Huaraz com a sensação de um novo fracasso.

Contudo, a montanha ainda chamava. Uma nova janela de bom tempo surgiu. Com Max Cavalim, agora como parte da equipe, e com o auxílio de um porteador para aliviar o peso, fizeram uma nova tentativa. A aproximação foi menos penosa, mas não menos difícil. No refúgio, Max se sentiu mal e decidiu desistir.

Restos Humanos e a Força da Resiliência

Quase simultaneamente à descida de Max, um grupo de policiais subia em sentido oposto. Um guia informou que haviam sido encontrados restos humanos na base da geleira. Hauck e o porteador foram investigar e encontraram ossos e equipamentos de três montanhistas desaparecidos há vinte anos, exumados pelo degelo acelerado. Era o Huascarán mostrando seus perigos, como nas tentativas anteriores.

Retornaram ao acampamento tentando não pensar nisso, acreditando que um acidente passado não precisava se repetir. Chegar ao C2 foi um déjà-vu físico e emocional, mas o desgaste era multiplicador. Maria, sentindo-se no limite, tomou a dura decisão de desistir. Hauck, exausto, mas disposto a continuar, formou uma cordada com dois irmãos mexicanos, Ariel e Gustavo Alarcon.

O Cume Conquistado e a Promessa de Retorno

A madrugada de ascensão foi sob um céu estrelado. A rota era cruel, com pontes de gelo finas e frágeis. A escalada exigia cordas e piolets técnicos em um labirinto de vales e cristas de gelo. Ao amanhecer, a inclinação suavizou, mas a neve profunda exigiu abrir caminho fisicamente exaustivo. Ariel assumiu a liderança até que, finalmente, alcançaram o cume do Huascarán Sul, a 6.768 metros.

No topo, acima das nuvens, Hauck sentiu uma emoção indescritível: não era só vitória ou alívio, mas um reencontro com o jovem sonhador, um abraço silencioso no passado e o fechamento de um desejo de anos. Concluiu a mais alta montanha de todos os principais países andinos. Desceu com cuidado redobrado, lembrando-se de Maria, dos corpos encontrados, do equatoriano e do quanto a montanha já cobrou de tantos.

O Huascarán Norte ficou para depois, como uma promessa. Uma promessa de retorno com Maria, para fazer o cume duplo juntos e transformar aquela dívida em um capítulo final. “A montanha ainda nos espera. E quando voltarmos, será juntos. Como sempre deveria ter sido”, conclui Hauck, conforme divulgado em seu artigo.

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