Imediatez, desintermediação e reintermediação nas redes, por que a promessa democrática da internet fracassou e como a comunicação ficou encastelada

A discussão sobre Imediatez parte da ideia de que a internet eliminou intermediários, democratizou a palavra, e transformou quem fala em autoridade imediata.

Mas essa promessa se choca com uma realidade em que poucos controlam as plataformas, e o público perde referências comuns para o debate público.

Conforme o texto fornecido sobre o livro ‘Imediatez’ de Anna Kornbluh.

Estilo e conceitos, quando a linguagem afasta o público

Um dos problemas apontados é o estilo da própria autora, que recorre a termos técnicos e frases que dificultam a compreensão ampla, em vez de dialogar com um público mais extenso.

No texto aparece até a expressão “a cadeia evasiva da metonímia ou da parapraxia”, e também “adumbração especulativa”, trechos que ilustram o uso recorrente de jargão.

Essa escolha de linguagem reforça a crítica de que teorias sobre comunicação devem ser pensadas para além do círculo acadêmico, se a intenção for transformar práticas sociais.

Da desintermediação à reintermediação, concentração e responsabilidade

A análise reconhece a derrocada dos antigos gatekeepers e a democratização do acesso, mas aponta que a ausência de mediações tradicionais não equivale a mais democracia.

O que se vê, segundo o texto, não é simples desintermediação, mas uma reintermediação por poucas plataformas e empresas que alcançam o público e moldam o debate.

Na prática, um comediante com muitos seguidores no YouTube pode ter tanta autoridade quanto o Jornal Nacional, e ainda assim a responsabilidade, a moderação e os freios da mídia tradicional se perdem.

Esse fenômeno leva a situação em que, segundo o texto, “cada um adotou seu conjunto de fatos próprios”, e a disputa pela visibilidade passou a valer mais do que a construção coletiva de referências.

O problema real e a crítica à formulação teórica

O texto critica também as relações de causalidade apresentadas pela autora, que por vezes parecem frágeis, e a unidade forçada entre fenômenos diversos apenas porque ocorrem no sistema capitalista.

Além disso, há um argumento sobre a autoficção: falar diretamente da própria vida não é novidade histórica, o que mudou foi o acesso ampliado a recursos e plataformas.

A explicação de Kornbluh para a popularidade da autoficção, ligada ao que ela chama de “capitalismo tardio demais”, é questionada pelo autor do texto, que lembra que a possibilidade de publicar hoje amplia vozes, mas não garante qualidade democrática.

Como recuperar o debate público, forma e propósito

O texto sugere que, para enfrentar a crise do debate público, é preciso começar pela forma, pela clareza, e por um compromisso com a comunicação pública.

Como contrapartida à linguagem hermética, é citada a provocação do próprio texto, que lembra que “onde Marx fazia questão de ser entendido por aqueles cujas vidas pretendia transformar, discípulos dele como Kornbluh quase sempre optam por caminhos opostos”.

Em vez de encastelar-se em teorias inacessíveis, a proposta implícita é apostar em análises que sejam compreensíveis, e em estratégias que enfrentem a concentração das plataformas e restabeleçam pontos de referência compartilhados.

Sem clareza e sem disposição para dialogar com públicos diversos, a crítica à Imediatez corre o risco de repetir o problema que pretende denunciar, mantendo uma elite intelectual separada da mudança social que diz defender.

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