Conselho Deliberativo decide em 14 de janeiro sobre o pedido de impeachment, oposição precisa de 171 votos, há suspeitas sobre venda irregular de camarotes e movimentações financeiras sob apuração
O processo de impeachment contra a presidência do São Paulo continua em curso, mesmo após parecer contrário do Conselho Consultivo, que se reuniu na noite de terça-feira, 6.
O futuro de Julio Casares será decidido pelo Conselho Deliberativo em assembleia marcada para 14 de janeiro, a partir das 18h30, e a oposição busca convencer conselheiros a aprovar o afastamento.
O pedido foi protocolado em dezembro por um grupo de 57 conselheiros e se baseia em acusações de administração temerária, falta de transparência e comercialização irregular de ingressos para camarotes.
conforme informações divulgadas pelo ge.com e UOL.
Como funciona o processo e os números que importam
O Conselho Consultivo, formado por ex-presidentes do clube e do Conselho Deliberativo, emitiu um parecer contrário à abertura do processo, mas o órgão é apenas consultivo, sem poder de decidir o afastamento.
A decisão final cabe ao Conselho Deliberativo, que tem 254 conselheiros aptos, e exige o voto de dois terços para aprovar o impeachment, o que significa, segundo a base do pedido, a necessidade de 171 votos.
Segundo o documento recebido, “Alcançar 171 votos é difícil, mas é possível, sim”, afirmou Flávio Marques, conselheiro da oposição e um dos signatários do pedido de impeachment.
Há preocupação entre opositores de que a escolha da data, em janeiro, reduza a presença de conselheiros, por ser um mês de férias de parte dos membros, o que pode atrapalhar a coleta dos votos necessários.
Acusações, evidências e apurações em andamento
O pedido de afastamento cita, entre outros pontos, descumprimentos orçamentários, falta de transparência na divulgação das contas do clube e a comercialização irregular de ingressos para camarotes do Morumbi reservados à presidência em dias de shows.
Em dezembro, o site ge.com divulgou áudios que indicavam um suposto esquema de venda clandestina de ingressos para um camarote do Morumbi, e a repercussão levou ao afastamento de Mara Casares, ex-esposa de Julio e então diretora feminina, cultural e de eventos, e de Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto do futebol de base.
O clube abriu duas sindicâncias, uma interna e outra externa, com auditoria independente, para apurar os fatos, e em nota afirmou que “realizará a devida apuração dos fatos” e que adotará as medidas cabíveis a partir dela.
Além das suspeitas sobre camarotes, reportagem do portal UOL informou que a Polícia Civil investiga o recebimento de R$ 1,5 milhão em dinheiro pelo presidente do clube, e 35 saques que somam R$ 11 milhões realizados em contas do São Paulo.
Sobre essas movimentações, os advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, que representam Casares, afirmaram que as movimentações financeiras apontadas em relatório do Coaf “têm origem lícita e legítima, compatível com a evolução da capacidade financeira” do dirigente.
Reações da oposição e argumentos centrais
Integrantes da oposição sustentam que o pedido de impeachment tem base técnica, com foco em irregularidades de gestão, e não motivação política. “Ele se baseia em uma série de descumprimentos da gestão”, disse Flávio Marques, na explicação que acompanha o pedido.
O conselheiro Marco Aurélio Cunha, uma das principais vozes opositoras, criticou a escolha da data e afirmou, em fala registrada, “Janeiro é um mês em que não se vota nada. Eu aprendi isso na política. Eu fui vereador e sempre ouvi dizer, ‘se você quiser fazer uma maldade, faz em janeiro que as pessoas estão desmobilizadas'”.
Outro argumento da oposição é que a rapidez no calendário pode servir para evitar que novas revelações cheguem a público e aumentem o desgaste do presidente, reduzindo a chance de aprovação do afastamento.
Próximos passos, cenários e consequências práticas
Se o Conselho Deliberativo aprovar o impeachment com pelo menos 171 votos, uma assembleia geral de sócios deverá ser convocada em até 30 dias para ratificar ou rejeitar a decisão dos conselheiros.
Em caso de afastamento confirmado, assume a presidência o primeiro vice-presidente, Harry Massis Júnior, que cumprirá o restante do mandato até a realização de novas eleições previstas para o fim do ano.
No cenário atual, a combinação entre o parecer do Conselho Consultivo, a data escolhida para a votação e as dificuldades práticas de mobilização da oposição fazem com que conselheiros contrários ao presidente considerem o afastamento um desafio, mesmo com as apurações e as reportagens que ganharam destaque nas últimas semanas.
O desfecho da votação em 14 de janeiro definirá se o impeachment do São Paulo avança à etapa final, e o caso seguirá sob investigação policial e sindicâncias internas enquanto o clube busca respostas e uma saída para a crise financeira e de imagem.