Crise Imobiliária: Juros Elevados e Incertezas Tributárias Forçam Setor a Estratégia Defensiva
O cenário atual para o setor da construção civil no Brasil é marcado por desafios significativos. A taxa de juros em patamar elevado, o crédito restrito fora dos programas subsidiados e as incertezas em torno da implementação da reforma tributária têm levado as incorporadoras a ajustar suas estratégias de investimento. A consequência é uma redução na exposição a segmentos mais sensíveis ao financiamento e um foco crescente onde a demanda se mantém ativa.
Nesse contexto, Yorki Estefan, presidente do Sinduscon-SP e à frente da construtora Conx, revela uma mudança de rota. Ele explica a decisão de concentrar quase integralmente as operações no programa Minha Casa, Minha Vida, onde o financiamento público ainda viabiliza vendas. Essa estratégia, embora defensiva, é vista como necessária diante das adversidades.
Em entrevista, Estefan expressa preocupação com a política monetária brasileira, comparando a taxa Selic de 14,75% a um cenário de guerra. Ele critica o impacto direto na produtividade do setor, afirmando que um aumento de apenas 1 ponto percentual na taxa de juros pode anular anos de esforço das empresas. As informações foram divulgadas pelo Sinduscon-SP.
Foco no Minha Casa, Minha Vida como Refúgio Estratégico
A Conx, com histórico de atuação em diversos segmentos, agora direciona seus investimentos quase que totalmente para o Minha Casa, Minha Vida. Yorki Estefan justifica essa escolha pela necessidade de adaptação ao mercado, destacando que a classe média não possui a mesma urgência de mudança de moradia que o público de menor renda. A expectativa é de que a retomada consistente em outros segmentos só ocorra a partir de 2028.
O empresário revela que o banco de terras da Conx é majoritariamente destinado ao programa habitacional, com estoques para aproximadamente um ano e meio a dois anos de operação. Em alguns casos, terrenos originalmente planejados para outros públicos foram readequados ou descartados para se alinharem às faixas do Minha Casa, Minha Vida, incluindo a Faixa 4, que atende famílias com renda de até R$ 13 mil.
A recente isenção de imposto de renda para rendimentos de até R$ 5.000 é vista como um fator positivo, com estimativas de um ganho de renda de até 8% para famílias na região Sudeste, o que pode facilitar a análise de crédito. Essa medida reforça a importância do programa habitacional em um cenário econômico desafiador.
Taxa de Juros: Um Freio Inibidor para o Setor Imobiliário
Estefan demonstra forte preocupação com a taxa de juros brasileira, que considera incompatível com os padrões internacionais. Ele compara o patamar elevado da Selic a países em conflito, ressaltando seu papel como um inibidor para o setor imobiliário. A construção civil, segundo ele, é intrinsecamente ligada ao custo do crédito, e qualquer aumento pontual na taxa pode desmantelar esforços de produtividade de anos.
A busca por um equilíbrio macroeconômico forte é uma demanda constante, mas Estefan não acredita que isso se concretize antes de 2026. Essa instabilidade afeta diretamente a capacidade de planejamento e investimento das empresas do ramo, gerando um ambiente de cautela e incerteza.
Reforma Tributária: Revolução e Temores no Custo da Construção
A reforma tributária é vista como uma revolução iminente para o setor nos próximos três a quatro anos. A expectativa é de que ela torne a mão de obra artesanal mais cara e os produtos industrializados mais competitivos. Isso ocorre porque as empresas poderão abater 100% dos impostos pagos em materiais industrializados, mas não sobre o custo da mão de obra própria.
O principal temor reside na possibilidade de sobretaxação, caso a indústria não repasse integralmente os descontos dos impostos antigos. Tal cenário impactaria diretamente o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) e, consequentemente, o custo final da moradia para o consumidor. O setor está vigilante para evitar esse repasse, ciente da limitação de preço e do fôlego financeiro do consumidor.
Industrialização e Sustentabilidade na Construção Brasileira
A industrialização tem transformado os canteiros de obras, com a adoção de kits pré-montados para instalações elétricas e hidráulicas, e o uso de paredes prontas vindas de fábrica. Esse processo otimiza o trabalho, reduzindo a necessidade de mão de obra especializada in loco e diminuindo significativamente os problemas construtivos e a geração de resíduos.
Em relação à sustentabilidade, a construção civil brasileira se destaca positivamente. Comparada a países europeus, a emissão de CO₂ é significativamente menor, em parte devido ao uso de energia elétrica limpa e a uma engenharia mais racional no uso de insumos. Sistemas de vigas e colunas, por exemplo, permitem lajes mais finas e com menor consumo de material estrutural.
A eficiência nos canteiros de obra brasileiros é notável, com alto índice de reprocessamento de materiais, evitando o descarte em aterros sanitários. A industrialização de processos, como o uso de kits hidráulicos e elétricos pré-moldados, reduziu a perda de materiais para um patamar máximo de 8%. A transição para paredes prontas e sistemas de drywall diminui drasticamente a geração de resíduos e a probabilidade de acidentes de trabalho, posicionando a construção brasileira em um patamar de maturidade que a Europa levará uma década para alcançar.
Desafios na Formação de Engenheiros e o Futuro da Gestão
A escassez de profissionais qualificados é um desafio a ser enfrentado. Estefan aponta currículos de engenharia defasados e a falta de foco em aspectos humanos e de gestão. A necessidade de reformular a grade curricular para torná-la mais alinhada à realidade atual e mais atrativa aos estudantes é evidente.
A nova geração, incluindo os filhos de Estefan, tem trazido uma influência positiva na gestão da Conx, promovendo o rejuvenescimento da empresa e sua projeção para o futuro. Essa renovação é crucial para a perenidade do negócio, garantindo a continuidade e a adaptação às novas demandas do mercado.