A “piada” de Trump e a explosão de risadas que ecoou o machismo no esporte
A política e o esporte, muitas vezes, se entrelaçam de formas inesperadas. Um exemplo recente e emblemático ocorreu durante os Jogos Olímpicos de Inverno, após a final do hóquei no gelo masculino.
A seleção dos Estados Unidos conquistou o ouro contra o Canadá, e a comemoração no vestiário foi intensa. O presidente Donald Trump ligou para parabenizar a equipe e, em tom de “piada”, convidou os jogadores para irem à Casa Branca, acrescentando que teria que levar o time feminino também, “senão provavelmente vou sofrer um impeachment”, em referência à recente vitória olímpica das mulheres.
A reação dos jogadores foi uma “explosão de risadas debochadas”, um momento que, infelizmente, não surpreende, pois reflete uma realidade presente em diversos ambientes esportivos e profissionais. O foco desta matéria, no entanto, não é a política ou Donald Trump, mas sim a persistente e preocupante normalização da diminuição e humilhação de mulheres, especialmente em grupo, e a raridade de quem se posiciona contra falas machistas.
A repercussão e as desculpas: um ciclo vicioso
O incidente rapidamente ganhou destaque na mídia esportiva global. Diante da repercussão negativa, os envolvidos precisaram se pronunciar. O capitão da equipe lamentou a situação, enquanto outros jogadores desconversaram. Um deles afirmou que “as pessoas estão tentando achar um motivo para colocar-nos para baixo”, mas o fato é que a própria “situação criada por vocês” tirou o foco da conquista.
O autor do gol do título, ao tentar justificar a fala, acabou por associar a crítica ao machismo com questões políticas, dividindo opiniões entre admiração e crítica. Somente após a divulgação do vídeo e a repercussão negativa, alguns jogadores demonstraram arrependimento.
O contraste entre as conquerdas masculinas e femininas
Para contextualizar a gravidade da situação, é fundamental destacar o histórico vitorioso da seleção feminina de hóquei dos Estados Unidos. Elas subiram ao pódio nas últimas oito edições olímpicas, conquistando três ouros, quatro pratas e um bronze, desde que a modalidade foi incluída no programa para mulheres. Em contraste, a equipe masculina não vencia desde 1980.
A capitã da equipe feminina, Hilary Knight, atleta que disputou sua quinta Olimpíada e se tornou a maior goleadora de seu país em esportes de gelo, classificou a fala de Trump como uma “piada sem graça”, de forma educada. Knight, mais uma vez, precisou reafirmar o óbvio: **mulheres não são inferiores e seus feitos não devem ser ofuscados**. Em protesto, a equipe feminina recusou o convite para visitar a Casa Branca.
Machismo: uma questão de vida ou morte, e a importância de ser antirracista e antifascista
Normalizar o desprezo por mulheres, justificando-o como “brincadeira” ou “opinião”, tem consequências graves e pode, literalmente, matar. Segundo a ONU, a cada dez minutos, uma mulher é assassinada por parceiros ou familiares ao redor do mundo, fora os casos que não entram em estatísticas oficiais de feminicídio.
A ministra do STF, Cármen Lúcia, recentemente destacou essa dura realidade ao afirmar que “nós, mulheres —mesmo eu, branca, mesmo eu, juíza—, somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. (…) Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente”.
Assim como não basta apenas não ser racista, é preciso ser **antirracista**. Da mesma forma, é fundamental ser contra o machismo e a misoginia. Uma única frase, um repúdio a uma fala sexista, pode **mudar o rumo da conversa e dos comportamentos**. São essas atitudes que demonstram respeito genuíno pelas mulheres, e é esse o tipo de homem que elas de fato respeitam.