Metáforas: As Lentes Invisíveis do Poder na Política Brasileira e os Riscos da Linguagem Bélica

Metáforas na Política: Ferramentas de Poder que Moldam a Percepção e Mobilizam Eleitores

A política, com seus conceitos abstratos como déficit fiscal e governança, muitas vezes parece distante do cotidiano do cidadão comum. No entanto, a forma como esses temas são comunicados pode transformá-los, utilizando a imaginação para mobilizar e conectar com o eleitor. É nesse ponto que a metáfora se revela uma poderosa ferramenta de poder.

Ao traduzir a aridez dos termos técnicos em imagens vívidas, as metáforas tornam a política mais acessível. Frases como “o país está à deriva” ou “a inflação corrói o salário” criam uma ponte entre o abstrato e o concreto, permitindo que o público compreenda melhor a instabilidade e seus impactos.

Essa capacidade de simplificar o complexo confere às metáforas uma função pedagógica e orientadora. Elas não apenas explicam, mas também sugerem culpados e indicam caminhos, influenciando a percepção pública e as agendas políticas. Conforme análise de Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista e consultor político, a escolha dessas imagens é fundamental para o sucesso de campanhas e a construção de narrativas.

A Metáfora como Lente para a Compreensão Política

A política é intrinsecamente abstrata, lidando com termos como arcabouço fiscal, pacto federativo e taxa Selic, que não fazem parte do vocabulário diário da maioria das pessoas. Contudo, a comunicação política eficaz utiliza metáforas para tornar esses conceitos compreensíveis. Dizer que “o Brasil é um navio em mar revolto” oferece uma moldura cognitiva clara para entender a instabilidade econômica e política, posicionando o governante como capitão e o eleitor como passageiro.

Essa simplificação é crucial para a mobilização. Ao invés de debater tecnicamente um déficit, afirma-se que “o Estado é um paquiderme lento”, o que imediatamente sugere a necessidade de reformas. Da mesma forma, a corrupção, ao ser comparada a um “câncer”, legitima a ideia de uma “extirpação radical”. Cada imagem carrega consigo uma agenda implícita, moldando a forma como as questões são percebidas e as soluções são concebidas.

Narrativas e Campanhas: O Poder das Metáforas na Construção de Imagens

Campanhas políticas não são vencidas apenas com dados, mas com narrativas poderosas, e as metáforas são os tijolos dessas narrativas. Apelidos como “caçador de marajás”, “pai dos pobres” ou “mito” condensam histórias inteiras em poucas palavras, representando a “economia simbólica do discurso”. Cada rótulo é uma metáfora que busca criar uma conexão emocional e identitária com o eleitorado.

O “pai dos pobres”, por exemplo, evoca uma imagem de proteção e cuidado, enquanto “o mito” sugere uma figura quase inatingível, superior às circunstâncias. Essas construções simbólicas são essenciais para a construção da imagem pública de um candidato, transformando conceitos abstratos em personagens com os quais o eleitor pode se identificar ou contra os quais pode se posicionar.

Os Perigos da Linguagem Bélica na Política

Apesar de sua utilidade, as metáforas também podem ocultar e distorcer a realidade. Quando a política é comparada a uma guerra, o adversário deixa de ser um concorrente e passa a ser uma “ameaça existencial”. O debate se transforma em “batalha”, o parlamento em “campo de confronto” e o voto em “munição”. Nesse cenário, o compromisso soa como rendição, minando a possibilidade de diálogo e consenso.

O linguista George Lakoff demonstra que as metáforas estruturam nosso pensamento. Se a política é vista como um “jogo”, a “trapaça” pode ser aceita como estratégia. Se é um “mercado”, tudo se torna “negociação”. Se é um “espetáculo”, a “performance” pode superar o conteúdo. A escolha da metáfora, portanto, não é inocente, pois molda percepções e comportamentos.

O Brasil de 2026: Metáforas Bélicas e o Risco da Militarização

Em um Brasil de 2026, marcado pela radical polarização, Gaudêncio Torquato observa que as metáforas tendem a se tornar ainda mais bélicas. Expressões como “tomar o poder”, “resistir ao avanço” e “derrotar o inimigo” criam um “vocabulário de quartel”. O grande risco é que, ao militarizar a linguagem, a própria prática política também se militarize, afastando ainda mais a sociedade do diálogo e da cooperação.

Responsabilidade na Escolha das Metáforas: Iluminar em Vez de Incendiar

Diante desse cenário, o comunicador público tem a responsabilidade de usar as metáforas com cuidado. Em vez de “incendiar”, é possível “iluminar”. Ao invés de “dividir”, pode-se “conectar”. A política não precisa ser um “ringue” ou um “tabuleiro de xadrez”, mas pode ser uma “ponte” ou uma “mesa de negociação”. As metáforas podem ser arenas de consenso, não apenas campos de batalha.

A metáfora é, de fato, inevitável. O desafio reside em escolher imagens que ampliem a compreensão sem reduzir a complexidade, que inspirem ação sem estimular o ódio, e que traduzam a realidade sem deformá-la. Como ensinou Aristóteles, a metáfora é “ver o semelhante no dessemelhante”. E, na política, ver bem é um passo crucial para governar melhor.

Leia mais

PUBLICIDADE