Protesto em Milão: Milhares tomam as ruas contra Jogos Olímpicos de Inverno e crise social
No primeiro dia completo dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, milhares de pessoas ocuparam as ruas da cidade em um ato de protesto. A manifestação, organizada por sindicatos e ativistas, levantou bandeiras contra o alto custo de vida e as crescentes preocupações ambientais que afetam a região.
A marcha destacou o que os ativistas descrevem como um modelo de cidade cada vez mais insustentável. O aumento vertiginoso dos aluguéis e a acentuada desigualdade social foram pontos centrais das reivindicações, que buscavam chamar a atenção para os impactos negativos dos grandes eventos.
A manifestação, que reuniu cerca de 10 mil pessoas segundo estimativas policiais, ocorreu sob forte esquema de segurança. As autoridades acompanharam de perto o trajeto, que partiu da praça Medaglie d’Oro e seguiu até o bairro de Corvetto, uma área historicamente ligada à classe trabalhadora. Conforme informação divulgada pela polícia, seis pessoas foram detidas após um pequeno grupo atirar fogos de artifício e bombas de fumaça contra os policiais.
Críticas ambientais e sociais marcam os protestos
Um dos focos do protesto foi o que muitos consideram um desperdício de dinheiro público e recursos em prol dos Jogos Olímpicos. Grupos ambientalistas e comunitários apontam para projetos de infraestrutura que, segundo eles, prejudicaram o meio ambiente em comunidades de montanha. Uma faixa carregada pelos manifestantes resumia o sentimento: “Vamos retomar as cidades, vamos libertar as montanhas”.
Stefano Nutini, de 71 anos, presente na marcha, declarou: “Estou aqui porque estas Olimpíadas são insustentáveis — econômica, social e ambientalmente”. Ele criticou o ônus imposto às cidades de montanha, que sediam eventos nesta edição mais dispersa dos Jogos de Inverno, ressaltando o impacto da nova pista de bobsled em Cortina d’Ampezzo.
A construção da pista, que custou 124 milhões de euros, foi alvo de protestos específicos. Manifestantes levaram árvores estilizadas de papelão para simbolizar os lariços que, segundo eles, foram derrubados. “Árvores centenárias, sobreviventes de duas guerras, sacrificadas por 90 segundos de competição”, dizia uma faixa, evidenciando a indignação com a priorização do evento esportivo em detrimento da natureza.
O boom imobiliário e o alto custo de vida em Milão
A realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão coincide com um período de intenso boom imobiliário na cidade, especialmente após a Expo Mundial de 2015. Esse cenário tem pressionado os moradores locais com o aumento do custo de vida, em particular com a alta dos aluguéis. A situação é agravada por um regime tributário italiano que atrai residentes ricos, somado aos efeitos do Brexit.
Esses fatores contribuem para a desigualdade crescente, tornando a vida em Milão cada vez mais desafiadora para muitos. A organização dos Jogos, para muitos, representa um aprofundamento dessas questões sociais e econômicas, e não uma solução.
O COI defende a sustentabilidade dos Jogos
Em contrapartida às críticas, o Comitê Olímpico Internacional (COI) tem destacado que os Jogos de Milão-Cortina utilizam majoritariamente instalações já existentes. Essa abordagem visa reforçar o compromisso com a sustentabilidade, buscando reduzir o impacto ambiental e os custos de infraestrutura, embora essa narrativa seja contestada pelos manifestantes.
A semana em Milão tem sido marcada por manifestações. Na última quinta-feira, o Greenpeace organizou um protesto contra o patrocínio da gigante petrolífera Eni aos Jogos. A tensão foi visível também na cerimônia de abertura, quando o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, foi vaiado.