Moratória da Soja em risco, Abiove e tradings como ADM, Bunge e Cofco deixam acordo que proíbe soja de áreas desmatadas e alarmam mercado

Abiove se desfiliou da Moratória da Soja, coalizão que proíbe comercializar soja de áreas desmatadas após 2008, e a decisão reacende debate sobre incentivos fiscais e preservação da Amazônia

A Abiove, associação que reúne as principais empresas de comércio de soja, anunciou nesta segunda-feira, 5, que se desfiliou da Moratória da Soja.

A decisão ocorre depois que o trecho de uma lei de Mato Grosso que impedia que empresas aderentes a acordos semelhantes usufruíssem de benefícios fiscais deixou de estar suspenso, em 1º de janeiro.

Analistas ambientais e organizações civis alertam para o risco de aumento do desmatamento e para impactos na reputação da soja brasileira no mercado internacional, conforme informação divulgada pela Abiove e por organizações signatárias da moratória, como o Greenpeace.

O que é a Moratória da Soja e por que ela importa

A Moratória da Soja foi criada em 2006 e, desde então, impede que tradings comercializem soja cultivada em áreas desmatadas após 2008.

Ambientalistas consideram a moratória uma das principais ferramentas globais para evitar o desmatamento ligado ao cultivo de soja na Amazônia.

Segundo o Greenpeace, 30% da área desmatada na floresta antes do acordo ser assinado era convertida em lavouras do grão, mas nos últimos 20 anos essa fatia caiu para 3,5%, argumento usado para demonstrar a eficácia do pacto.

Por que a Abiove saiu e o papel de Mato Grosso

A saída da Abiove foi motivada pelo fim da suspensão de um trecho de lei estadual de Mato Grosso, que impedia a concessão de benefícios fiscais a empresas que aderissem a acordos como a moratória.

A legislação, criada em 2024, teve a suspensão pelo Supremo Tribunal Federal e essa suspensão foi encerrada em 1º de janeiro, embora petições de organizações ambientais e da AGU tenham solicitado adiamento. O relator do caso é o ministro Flávio Dino.

Mato Grosso tem papel central no acordo, porque metade do seu território está no bioma amazônico e o estado cultivou cerca de 51 milhões de toneladas de soja em 2025, segundo dados mencionados pelas fontes.

Incentivos fiscais e quem mais lucrou

Auditores estaduais divulgaram um relatório preliminar em que constataram que comerciantes de grãos se beneficiaram de incentivos fiscais no valor de cerca de R$ 4,7 bilhões entre 2019 e 2024.

As americanas ADM e Bunge foram as maiores beneficiárias, recebendo cerca de R$ 1,5 bilhão cada, e a chinesa Cofco também foi apontada como beneficiada, e as três fazem parte da Abiove.

Esses valores alimentam o debate sobre subsídios e responsabilidade ambiental, e ajudam a explicar a decisão das empresas de revisar sua participação em acordos voluntários.

Riscos ambientais, mercado e citações

Organizações ambientais alertam que, sem o compromisso das empresas, áreas previamente desmatadas podem voltar a ser ocupadas por soja, e o gado que ocupava essas áreas poderia ser empurrado para dentro da floresta, causando novos desmatamentos.

Como afirmou Rômulo Batista, coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil, “A nossa preocupação é que, com as empresas não tendo mais esse compromisso, áreas desmatadas passem a ser ocupadas por soja e, indiretamente, o gado que estava ocupando essas áreas seja empurrado para dentro da floresta, causando novos desmatamentos“.

Em petição enviada ao relator do caso, o Greenpeace afirmou que o fim da Moratória da Soja “representa um grave risco à proteção da Amazônia, à meta de desmatamento zero do governo federal e à credibilidade da soja brasileira no mercado internacional“.

Em nota, a Abiove disse que o acordo cumpriu seu papel histórico ao longo de quase duas décadas, “deixando um legado incontestável que consolidou o Brasil como referência global em produção sustentável“.

A associação também afirmou que, “Haverá, individualmente, o atendimento às rigorosas demandas dos mercados globais, confiando igualmente nas autoridades brasileiras para a plena implementação de um novo marco regulatório, de modo a que sejam preservados os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, bem como a segurança e credibilidade ao produto brasileiro perante os seus mercados consumidores, a exemplo do que a Moratória da Soja conseguiu alcançar nesses quase 20 anos“.

É incerto até que ponto a desfiliação das tradings afetará a meta do governo federal de evitar qualquer desmatamento no país até 2030, que é uma das principais bandeiras ambientais do governo federal.

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