Manoel Carlos morreu aos 92 anos no Rio de Janeiro, deixando um legado marcado por novelas que transformaram a televisão brasileira e criaram personagens icônicas, as Helenas.
O autor sofria de Parkinson e teve piora no estado de saúde no início do ano passado, com agravamento motor e cognitivo, segundo informações sobre seu quadro clínico.
O velório será restrito à família e a amigos íntimos, e a causa da morte não foi informada, conforme informação divulgada pela produtora Boa Palavra.
Trajetória, início na TV e cenas que marcaram gerações
Nascido em 14 de março de 1933, Manoel Carlos fez parte da geração que construiu a teledramaturgia no Brasil, começando ainda adolescente em teleteatros da Tupi.
Passou por emissoras como TV Paulista, Record e Excelsior, onde criou programas e dirigiu musicais, antes de se firmar na Globo, palco de sua maior influência.
No catálogo de novelas da Globo, títulos como Maria Maria, Baila Comigo, Água Viva, Sol de Verão e Felicidade ajudaram a consolidar o estilo que ele levou à dramaturgia.
As Helenas, o estilo realista e a sensibilidade feminina
Manoel Carlos consagrou-se pela criação das Helenas, protagonistas recorrentes, mulheres da classe média e alta que enfrentavam dramas cotidianos, muitas vezes em cenas de grande sensibilização pública.
Em entrevistas, ele sintetizou sua visão da obra com a frase, em que descreve sua abordagem, Minhas novelas retratam o cotidiano da classe média, seus dramas, desejos, suas vidinhas comuns e banais, mostrando como a rotina alimentar suas tramas.
Sobre as personagens femininas, ele afirmou em outros momentos, As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens, explicando a escolha recorrente por protagonistas mulheres.
Tragédias pessoais que marcaram a vida e inspiraram sua criação
A vida pessoal de Manoel Carlos teve perdas dramáticas que atravessaram sua obra e sua biografia, desde a morte precoce da primeira mulher, Maria de Lourdes, até a perda de filhos ao longo dos anos.
O autor sofreu com a morte de dois filhos adultos, Ricardo, que morreu em 1988 aos 32 anos, e Manoel Carlos Jr., que faleceu em 2012 aos 58 anos, além da perda do caçula Pedro, em 2014, aos 22 anos.
Em público, Maneco falou sobre a alegria tardia de ter mais filhos, e sobre como essas tragédias influenciaram seu olhar sobre família, laços e dor, temas recorrentes em novelas como Por Amor e Páginas da Vida.
Saída da Globo, disputa por direitos e legado entre público e mercado
O fim da relação com a Globo, em 2015, foi descrito como tumultuado, e recentemente o legado do autor passou por nova disputa judicial, com a produtora Boa Palavra alegando falta de prestação de contas detalhada pela emissora.
No último mês de setembro, a Boa Palavra, criada pela atriz Júlia Almeida, entrou com uma ação na Justiça do Rio de Janeiro contra a Globo, afirmando que a emissora não vinha prestando contas detalhadamente sobre pagamentos relacionados às produções de Maneco.
Embora a contenda judicial e as discussões sobre direitos tenham tingido os últimos anos de sua carreira, o impacto artístico de Manoel Carlos permanece evidente, com cenas e personagens que continuam a ser citados e reprisados pelo público.
Legado, reconhecimento e memória
Além da televisão, Manoel Carlos participou da cena musical e cultural, dirigindo shows históricos e ajudando a formar artistas, o que amplia seu legado além das tramas televisivas.
Seja por suas Helenas, seja por enredos que abordaram temas sociais como câncer, síndrome de Down, alcoolismo e o envelhecimento, ele deixou um acervo que vira referência quando se discute representatividade e emoção nas novelas brasileiras.
O autor também teve atuação como poeta e selecionador de trilhas sonoras, deixando marcas de sensibilidade poética e musical em suas obras, elementos que ajudaram a compor a memória afetiva de gerações.
Em nota inicial sobre o falecimento, a produtora Boa Palavra confirmou a morte e informou que o velório será restrito à família e a amigos íntimos, conforme informação divulgada pela produtora Boa Palavra.