Multipropriedade no futebol: como Chelsea, Strasbourg, PSG e City Group transformam clubes satélites em ativos e geram controvérsia entre torcedores

A multipropriedade no futebol virou um modelo global, em que um grupo controla clubes em ligas diferentes e organiza fluxos de jogadores e recursos entre eles.

Clubes satélites recebem investimentos, treinadores e atletas emprestados, mas também ficam pressionados a vender talentos ao clube principal, gerando tensão entre torcida e gestão.

Esta reportagem explica como funciona o sistema, quem são os principais atores e quais são os riscos para a integridade esportiva, conforme informações do material fornecido.

Como funciona o modelo na prática

O modelo se estrutura em torno de um clube economicamente forte, ao redor do qual gravitam equipes satélites menores que disputam diferentes campeonatos.

Esses clubes menores costumam receber recursos para infraestrutura e contratações, e se beneficiam do empréstimo de atletas do clube principal, mas ficam, em certa medida, obrigados a vender seus melhores jogadores para o time líder.

O economista do esporte Christophe Lepetit traça uma “tipologia dos clubes na multipropriedade”, conforme sejam ou não o carro-chefe do grupo, conceito que ajuda a entender diferentes papéis dentro da rede.

Casos, números e exemplos recentes

Na prática, grandes grupos empresariais controlam redes com clubes em várias ligas, com exemplos na Inglaterra, França, Itália e além.

Conforme relatório citado no material, “entre 200 e 300 clubes fazem parte hoje de algum modelo de multipropriedade, ‘contra menos de 100 há cinco anos e menos de 40 em 2012′”, o que mostra a rápida expansão do fenômeno.

Entre os exemplos citados estão o BlueCo, dono do Chelsea e do Strasbourg, cujo treinador Liam Rosenior foi contratado pelo clube inglês, provocando a revolta de torcedores alsacianos.

Outras redes incluem City Group, ligado ao Manchester City, Troyes e Bahia, Ineos, dono do Manchester United e do Nice, e RedBird, proprietário do Milan e com ligações ao Toulouse.

Na França, dez dos 18 clubes da elite são afetados pela multipropriedade, incluindo PSG, Monaco, Lens, Metz, Lyon, Toulouse, Strasbourg, Nice, Le Havre e, em breve, Lorient.

O modelo também alcança o futebol feminino, com redes como a da empresária Michele Kang, dona do OL Lyonnais e do London City Lionesses, expandindo o alcance dos grupos.

Houve ainda casos de risco financeiro, como a falência do fundo 777 Partners, que afetou o Red Star, deixando o clube à mercê de credores, e impactos no Standard de Liège e no Vasco da Gama.

Impactos esportivos e respostas das entidades

A presença de clubes do mesmo grupo numa mesma competição pode distorcer o equilíbrio esportivo, por isso a Uefa e a Fifa acompanham o fenômeno de perto.

Em um caso prático, o Crystal Palace, que havia conquistado em campo uma vaga na Europa League, foi deslocado para a Conference League para dar lugar ao Lyon, já que ambos tinham o mesmo acionista.

Por outro lado, a Uefa autorizou a participação simultânea do Manchester United e do Nice na Europa League em 2024, e também do Manchester City e do Girona na Liga dos Campeões, após avaliar “mudanças significativas” nas estruturas de gestão.

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, afirmou que há discussões sobre mudança nas regras, mas descartou uma proibição total, segundo o material. A Fifa aplicou restrições em outro caso, impedindo o León de disputar o Mundial de Clubes de 32 times por compartilhar donos com o Pachuca.

Riscos, críticas e o futuro do modelo

Criticas ao sistema apontam conflito de interesses, favorecimento de um clube em detrimento de outro e fragilidade financeira caso o grupo sofra problemas.

No Lyon, por exemplo, alegações de que decisões priorizaram as finanças do clube francês em detrimento do Botafogo, um satélite, geraram questionamentos sobre vendas de jogadores a valores abaixo do mercado.

Especialistas, torcedores e reguladores acompanham a evolução da multipropriedade no futebol, que segue em expansão, porém sob maior escrutínio de entidades e legisladores, diante dos riscos à competitividade e à transparência do esporte.

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