Petróleo perto dos US$ 85, mas vira para queda: entenda os motivos e o que esperar para o Brasil
O preço do petróleo, que iniciou a quarta-feira (4) próximo da marca de US$ 85, com alta expressiva, surpreendeu ao reverter a tendência e apresentar queda ao longo do dia. O barril Brent, referência mundial, chegou a atingir seu pico pela manhã, mas cedeu nas negociações da tarde.
Essa oscilação reflete a complexa relação entre tensões geopolíticas no Oriente Médio e a resposta dos mercados globais. A afirmação do Irã sobre controle de uma passagem marítima e a contrapartida dos EUA com promessa de escolta de navios parecem ter aliviado momentaneamente a pressão sobre os preços.
No entanto, especialistas alertam que a volatilidade pode persistir. Fatores como a duração de conflitos, interrupções na produção e o nível de estoques globais continuarão a influenciar as cotações, com potenciais reflexos na economia brasileira, especialmente nos preços dos combustíveis e na inflação.
Tensão no Oriente Médio e a Montanha-Russa do Petróleo
O dia começou com o petróleo em alta, impulsionado pelas recentes escaladas de tensão no Oriente Médio. O barril Brent, referência global, alcançou US$ 84,47 pela manhã, revertendo a tendência de queda observada no fechamento de terça-feira. O contrato de abril do Brent era negociado a US$ 81,18 no início da tarde, uma queda de 0,25%.
Nos dias anteriores, o petróleo já havia registrado uma forte alta, chegando a US$ 85,10 na segunda-feira (2), o maior valor desde julho de 2024. Essa valorização foi atribuída a confrontos na região, que geraram receios sobre o fornecimento global.
O barril do WTI, referência nos Estados Unidos, seguiu movimento semelhante, iniciando o dia em alta e passando a cair à tarde, cotado a US$ 74,29. Conforme informação divulgada, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter “controle total” de uma importante passagem marítima, o que aumentou a apreensão do mercado.
Respostas Estratégicas e Declarações de Otimismo
Em resposta à escalada de tensão, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que a Marinha americana poderá escoltar navios na região e que seguros a “preço razoável” seriam fornecidos. Essa declaração parece ter contribuído para um certo acalmar nos mercados.
Adicionalmente, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou em entrevista à CNBC que os mercados de petróleo bruto estão bem abastecidos. Ele destacou a existência de “centenas de milhões de barris armazenados em alto-mar” e prometeu novos anúncios sobre o setor.
Empresas de navegação relatam a paralisação de embarcações e a reavaliação de rotas devido a ataques e ameaças de bloqueio. Além do risco logístico, a instabilidade já causa paralisações pontuais na produção e fechamento de infraestrutura energética no Oriente Médio, alimentando o temor de uma nova crise global de energia.
Perspectivas de Preço e o Impacto no Brasil
Analistas apontam que a sustentação dos preços do petróleo acima de US$ 80 dependerá da duração e intensidade das interrupções no fornecimento. Estoques estratégicos elevados em países da OCDE e China, além de volumes em trânsito e armazenamento flutuante, atuam como amortecedores no curto prazo.
Consultorias internacionais preveem que o Brent possa permanecer na faixa de US$ 80 em março, recuando para cerca de US$ 70 nos meses seguintes. Cenários extremos, com destruição de infraestrutura, não descartam picos acima de US$ 100.
O preço elevado do petróleo pode pressionar a inflação brasileira. Segundo Décio Oddone, ex-diretor-geral da ANP, o petróleo alto tem um duplo efeito: “Aumenta a arrecadação e a entrada de divisas, mas também pressiona os combustíveis”. O Brasil exporta mais da metade do petróleo que produz, o que melhora a entrada de dólares, mas é dependente de importações de diesel e GLP, o que eleva os custos internos.
A defasagem no preço do diesel já era relevante antes da nova escalada. A Petrobras, conforme comunicado, evita repassar volatilidades momentâneas, ajustando preços apenas diante de mudanças estruturais. Contudo, se o Brent se mantiver acima de US$ 80 por um período prolongado, a pressão por reajustes, especialmente no diesel, tende a crescer.
Economistas alertam que o maior risco não é um salto imediato da inflação, mas a persistência de preços elevados do petróleo em um cenário global já incerto. Em ano eleitoral no Brasil, o impacto sobre os combustíveis ganha uma dimensão política adicional.