PF Suspeita de Vazamento na Operação Master: Investigados Sabiam de Busca e Apreensão Antes da Chegada dos Agentes
A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar crimes financeiros, pode ter sido comprometida por um vazamento. Documentos obtidos pelo UOL revelam indícios de que os investigados foram alertados sobre a operação, resultando em buscas frustradas.
Os agentes encontraram imóveis abandonados às pressas, apartamentos sendo esvaziados e suspeitos que teriam saído para atividades rotineiras e não retornado. Essas circunstâncias levantam sérias suspeitas de que as informações sobre a operação chegaram aos alvos antes da ação policial.
A investigação mirava crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Ao todo, 42 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cinco estados, com bloqueio de bens superior a R$ 5,7 bilhões. A PF não comentou os indícios de vazamento.
Camas Abandonadas e Fugas Estratégicas em Trancoso
Em Trancoso, na Bahia, a residência de Felipe Vorcaro, primo de um banqueiro e administrador de empresas ligadas ao grupo investigado, foi encontrada com a porta do quarto aberta, ar-condicionado ligado e lençóis revirados. Segundo o relatório policial, o local apresentava “aparência de que as pessoas que ocupavam o imóvel teriam saído repentinamente”.
Uma babá com um bebê, além de outros familiares, estavam na casa e informaram que Felipe e sua esposa haviam saído para a academia. No entanto, o casal não retornou enquanto os agentes da PF estavam no local. A consequência foi a impossibilidade de apreender celulares, tablets e notebooks, itens cruciais para a investigação.
Apartamento Sendo Esvaziado no Leblon e Fuga em Belo Horizonte
No Leblon, Rio de Janeiro, o apartamento do investidor Nelson Tanure, suspeito de fraudes com fundos de investimento, estava sendo esvaziado. Não havia pertences pessoais, funcionários ou familiares no local, e nenhum celular, veículo, joia ou dinheiro em espécie foi encontrado.
Em Belo Horizonte, a casa de André Beraldo de Morais, suspeito de operar empresas para desvio de recursos, apresentava um cenário de fuga às pressas. Roupas estavam jogadas pelo chão, camas desarrumadas e um cachorro de pequeno porte foi encontrado bem cuidado, mas os donos não. Na sala-cofre, a PF apreendeu um “grande arsenal de armas e munições”.
Conflito Institucional e Endereços Desatualizados Agravam Situação
O pedido de busca e apreensão, feito meses antes da operação, enfrentou um conflito institucional. A PF solicitou prazo adicional para confirmar endereços atualizados, mas o pedido não foi aprovado pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Essa decisão, somada aos indícios de vazamento, resultou em buscas amplamente frustradas.
Na residência de Fernando Vieira, em Nova Lima, Minas Gerais, a PF foi recebida por policiais militares à paisana, que se identificaram como seguranças privados. A PF registrou que não foi possível saber a lotação desses policiais, indicando a necessidade de apuração à parte. Diversas armas e munições foram apreendidas no local.
Defesa Contesta Versão da PF e Apresenta Explicações
A defesa de Daniel Vorcaro contesta a versão da Polícia Federal sobre a operação em sua mansão. Negam resistência à entrada dos agentes e afirmam que a PF atirou nas fechaduras sem aguardar que a porta fosse aberta. Quanto à presença de um advogado no local antes da chegada da PF, a defesa alega que foi uma medida preventiva, após a prisão do cunhado do banqueiro na véspera.
A defesa de Nelson Tanure informou que ele havia se mudado recentemente do endereço, e que uma simples checagem na portaria teria revelado seu local de residência atualizado. O empresário nega qualquer relação societária com o Banco Master, do qual foi cliente, e lamenta especulações sem fundamento sobre controle do banco.