Profissionalização da Arbitragem: Ex-árbitros aprovam novo modelo da CBF, mas alertam para falhas na implementação

Novo modelo de arbitragem da CBF recebe elogios, mas gera debates sobre critérios de seleção e avaliação.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu um passo importante ao apresentar um novo modelo para a profissionalização da arbitragem no país. A proposta, que inclui remuneração fixa, sistemas de avaliação e bonificação, foi bem recebida por profissionais e especialistas, que veem um futuro com mais segurança jurídica e financeira para os árbitros.

No entanto, a iniciativa não está isenta de críticas. Questionamentos sobre os critérios de seleção dos primeiros profissionais e a clareza nas diretrizes de implantação surgiram, gerando debates sobre a efetividade do programa a longo prazo. Especialistas pedem mais transparência nos processos.

Apesar das ressalvas, a busca por uma arbitragem mais profissional e valorizada é um anseio antigo da categoria. O novo modelo da CBF visa transformar a realidade de homens e mulheres que dedicam suas vidas ao apito, oferecendo um suporte que antes era considerado inatingível. A informação foi divulgada pela própria CBF.

Aprovado por unanimidade, mas com ressalvas importantes

A ex-auxiliar e ex-presidente da comissão de arbitragem da FPF, Ana Paula Oliveira, parabenizou a CBF pela iniciativa, mas apontou fragilidades. “Quais foram os critérios adotados para definir os árbitros do primeiro projeto? São só os Fifas? Não, porque nem todas as mulheres Fifas foram selecionadas”, questionou Ana Paula, destacando que a seleção parece não ter seguido critérios claros, com nomes de temporadas futuras apresentando desempenho abaixo do esperado.

Ana Paula também levantou dúvidas sobre os critérios de avaliação e promoção. “Quais valências que a CBF vai avaliar? Física? Performance em campo? O árbitro que usa muito o VAR tem condições? Decisões de controle de jogo ou só técnicas? Qual o nível de inteligência emocional?”, indagou, ressaltando a necessidade de diretrizes mais detalhadas para garantir a justiça no processo.

A CBF informou que a filiação ao quadro da Fifa foi um critério relevante, mas não o único. Dos 72 profissionais selecionados inicialmente, 11 árbitros centrais, 20 assistentes e 12 árbitros de vídeo são vinculados à entidade máxima do futebol. Os demais têm vínculo apenas com a confederação brasileira. A intenção é criar um ambiente mais seguro e estável para os profissionais.

Um “gol de placa” para a categoria, segundo Carlos Eugênio Simon

Em contrapartida, o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon avaliou a iniciativa de forma extremamente positiva. “Em primeiro lugar, quero dizer que foi um golaço, um gol de placa da CBF. É uma luta antiga, sempre defendi muito a profissionalização”, declarou Simon, que atualmente é comentarista da ESPN.

Simon destacou a importância da segurança financeira para os árbitros. “O futebol é um negócio de milhões, e o árbitro sempre foi a única figura amadora. O estresse no futebol é muito alto, e os árbitros precisam de uma segurança para se dedicar exclusivamente a isso”, afirmou.

Ele relembrou sua própria trajetória. “Militei por 27 anos no futebol, cheguei ao top, sendo o único brasileiro a participar de três Copas, e mesmo assim sei o que é treinar sozinho, buscar médicos por conta, fisioterapeutas… Hoje haverá outra situação para os que chegam”, acrescentou, evidenciando o avanço que o projeto representa.

Detalhes do novo modelo de contratação e suporte

Os árbitros selecionados para o grupo de elite serão vinculados à CBF como prestadores de serviço, com contratos assinados em fevereiro e validade até o fim do ano. Todos receberão salários mensais, taxas variáveis e bônus por desempenho, devendo dedicar-se prioritariamente à atividade, mas sem obrigatoriedade de exclusividade.

A CBF oferecerá planos individualizados, com rotina semanal de treinos, monitoramento tecnológico, suporte na área de saúde e quatro avaliações anuais, incluindo testes físicos e simulações de jogo. Haverá também capacitações mensais com aulas teóricas, testes e sessões práticas.

A confederação planeja investir um total de R$ 195 milhões na categoria até o final de 2027. Embora os valores específicos por categoria não sejam divulgados, estima-se que cada um dos 72 contratados receba, em média, R$ 13 mil por mês, podendo chegar a R$ 30 mil fixos para os árbitros centrais.

Segurança e suporte: pilares fundamentais da profissionalização

O ex-árbitro Renato Marsiglia ressaltou a importância da remuneração fixa, do contrato anual e do suporte físico e psicológico. “O árbitro tem que ter uma segurança. Não pode ficar à mercê de uma lesão. Se ele não trabalha, ele não recebe”, explicou.

Marsiglia também enfatizou a necessidade de não depender do humor das comissões de arbitragem. “Ele não pode ficar à mercê do humor da comissão de arbitragem que resolve não escalá-lo por algum motivo, e aí ele fica três, quatro rodadas, sem receber. Por isso eu entrei na Fifa, não podia deixar minha mulher e meus filhos à deriva dependendo de escala de arbitragem”, desabafou.

A profissionalização da arbitragem, conforme definida pela CBF, faz parte de um pacote ambicioso de investimentos que visa elevar o nível técnico e a qualidade do espetáculo do futebol brasileiro, oferecendo aos árbitros as condições necessárias para que se dediquem integralmente à profissão.

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