Queda Lenta da Selic Aumenta Pressão em Empresas Endividadas: Juros Altos e Dívidas Criam Cenário Crítico para Recuperações
A expectativa de que a taxa básica de juros, a Selic, demore mais para cair intensifica a delicada situação de empresas com alto endividamento. Essa perspectiva adiciona um desafio extra na rolagem de suas dívidas, dificultando a reestruturação de débitos e impactando a saúde financeira desses negócios.
A recente redução da Selic para 14,75% ao ano, o primeiro movimento do Banco Central nesse sentido desde meados de 2024, ainda não trouxe alívio significativo. Diversas companhias, como Raízen, Grupo Pão de Açúcar (GPA), Ambipar, Light, Lojas Americanas, Azul e Gol, já foram forçadas a renegociar seus passivos com credores.
A combinação de juros altos com uma inflação próxima de 4% é considerada explosiva para empresas já endividadas. Enquanto o faturamento é corrigido pela inflação, o custo das dívidas é diretamente influenciado pela trajetória da Selic, criando um ciclo de pressão financeira. Conforme informação divulgada pela Fitch Ratings, cerca de 300 empresas avaliadas pela agência consomem, em média, 60% de sua geração de caixa apenas para o pagamento de juros de dívidas.
Endividamento Elevado e a Persistência dos Juros Altos
Mesmo com a projeção de que a Selic encerre 2026 em 12,5% ao ano, mais da metade da geração de caixa dessas empresas ainda seria destinada ao pagamento de dívidas, segundo Mauro Storino, diretor sênior da Fitch Ratings. Este cenário de reestruturações frequentes gera uma crescente aversão ao risco entre credores, especialmente os internacionais, que questionam a estabilidade econômica do Brasil e podem reduzir o fluxo de captações.
Impacto na Captação de Recursos e no Mercado de Renda Fixa
O mercado de renda fixa, que atingiu níveis recordes em 2025, com emissões de R$ 737,7 bilhões no mercado local e US$ 31,6 bilhões no externo, pode sofrer os efeitos dessa desconfiança. Participantes do mercado preveem uma possível redução de 20% a 25% no volume total de emissões de renda fixa para este ano. O receio de investidores em aplicar em empresas que lembrem casos de reestruturação recentes, como Raízen e GPA, contribui para essa projeção.
A consultoria RGF aponta um aumento de 7,5% no número de empresas em recuperação judicial no quarto trimestre de 2025, totalizando 5.680 casos. Esse cenário de incertezas é agravado por fatores como eleições, um crescimento econômico moderado e conflitos internacionais que impactam os preços do petróleo e, consequentemente, a inflação e a política de juros.
Discrepância no Mercado e a Percepção de Risco
A disparidade no preço dos títulos de dívida reflete a atual percepção de risco. Empresas financeiramente saudáveis encontram demanda para seus papéis, enquanto aquelas com gestão e estrutura de capital menos sólidas enfrentam ceticismo. Um exemplo claro é a comparação entre Raízen e Vibra. Enquanto debêntures da Raízen chegaram a ser negociadas a 40% do valor de face após seu pedido de recuperação extrajudicial, os papéis da Vibra mantiveram sua negociação próxima ao valor de emissão.
A diferença se explica pelo nível de endividamento. A Raízen apresenta uma relação dívida líquida/Ebitda de 5,3 vezes, enquanto a Vibra registra 2,4 vezes. A CSN, com endividamento crescente, também viu suas emissões com rendimento de inflação mais 7% negociadas com descontos significativos, caindo de 82% para 67% do valor de face em pouco mais de um mês.
Setor de Saúde Sob Atenção e Perspectivas Futuras
Pedro Breviglieri, gestor de crédito privado da Reach Capital, alerta que, embora os defaults corporativos sejam gerenciáveis, a percepção de maior risco pode desacelerar emissões, especialmente as indexadas ao CDI. Ele ressalta que casos como os de Braskem e Raízen, antes impensáveis, mostram a volatilidade do mercado, mas ainda é cedo para falar em choque de credibilidade. A performance geral dos títulos corporativos tem se mostrado resiliente, mas a incerteza para o futuro é grande.
O setor de saúde tem sido um ponto de atenção particular, com empresas como Oncoclínicas e Hapvida enfrentando desafios. Em 2025, 24% das ações negativas de rating da Fitch Ratings recaíram sobre este setor. Apesar das incertezas, a expectativa é de que as emissões de renda fixa continuem no primeiro semestre, antes do período eleitoral, embora o custo do dinheiro possa aumentar. Como ressalta Storino, “o dinheiro mais caro mesmo é aquele que não existe”.