Julgamento na Áustria e reflexos no Brasil sobre responsabilidade em montanhas
Um julgamento na Áustria, onde um alpinista foi condenado pela morte da namorada por hipotermia no Grossglockner, reacendeu um debate crucial no mundo do montanhismo: até onde vai a responsabilidade de quem está em uma trilha ou montanha quando algo dá errado. A falta de leis específicas e objetivas sobre o tema torna a análise de cada caso a única saída, mas a decisão austríaca pode marcar uma mudança de paradigma.
O caso envolveu Thomas P., mais experiente que Kerstin G., que a deixou perto do cume desprotegida e exausta, sob condições climáticas adversas. Ele foi condenado por homicídio culposo por negligência, recebendo cinco meses de prisão e multa. A decisão, considerada rara, foi publicada pelo jornal austríaco Der Standard e repercutiu internacionalmente.
No Brasil, o caso trouxe à tona incidentes como o de Roberto Farias Thomaz, que se perdeu no Pico do Paraná após ser deixado para trás por uma amiga, e o acidente fatal de Juliana Marins na Indonésia, deixada para trás por um guia. Conforme a BBC, a decisão austríaca é vista como uma “mudança de paradigma para os esportes de montanha”.
A responsabilidade em trilhas e escaladas
Pedro Hauck, montanhista e guia experiente da agência Alta Montanha, afirma que “qualquer acidente sempre vai ter um responsável”. Ele critica a ideia de que a responsabilidade recai apenas sobre o parque onde o acidente ocorre, especialmente em relações comerciais. “Para mim, a responsabilidade objetiva é de quem está vendendo a atividade”, explica Hauck.
Sobre a sentença austríaca, Hauck a considera “uma boa decisão”. Ele argumenta que, se o responsável é o participante ou quem guia, “o dono ou gestor da área pode ficar tranquilo pois não vai ser condenado”. Para ele, quem está oferecendo a atividade é quem deve arcar com a responsabilidade, o que, apesar de ser um peso, incentiva a cautela e a autoconsciência.
Imperícia e a busca por “montanhas instagramáveis”
Ricardo Ishigami, instrutor de escalada, aponta a “imperícia” como um dos principais fatores de acidentes, aliada ao aumento de pessoas buscando “montanhas e trilhas instagramáveis” sem o conhecimento técnico necessário. “A montanha revela quem de fato as pessoas são, o caráter e os valores de cada um, especialmente quando a situação envolve algum estresse”, observa Ishigami.
Ele enfatiza a importância de ter cuidado com quem se está “ligado numa montanha”, pois “é a sua vida que está na ponta de uma corda”. Muitos buscam atividades de montanha após verem tutoriais online, sem a devida base teórica e prática, o que assusta os profissionais da área. “Sabemos que não é bem assim”, lamenta.
O perigo da comercialização excessiva e a ética do montanhismo
Ishigami também critica a “comercialização excessiva de experiências”, onde guias podem levar pessoas sem experiência em vias de escalada famosas, como no Corcovado ou no Dedo de Deus. “Temos notado que muitos desses guias estão levando gente que nunca escalou, que vai ser literalmente puxada para o alto para comemorar um aniversário, por exemplo, com uma bela foto para a rede social”, relata.
O risco, segundo ele, é o leigo ficar desamparado caso o guia sofra um imprevisto, ou o cliente, sem conhecimento de segurança, se acidentar. “E aí, ele vai dizer que a culpa foi do turista, que se desencordou, que não obedeceu”, mas a falta de leis claras dificulta a identificação da real causa. “A única lei que é imutável na montanha é a da gravidade”, resume.
Princípios éticos e a liberdade com responsabilidade
Marcelo Rey Belo, presidente do Clube Alpino Paulista (CAP), concorda que leis não são a solução. Ele menciona que as federações de montanhismo surgiram para “defender os praticantes amadores de leis impraticáveis”, que poderiam inviabilizar atividades entre amigos. “No início dos anos 2000, começaram a surgir ideias de que para escalar era preciso ter junto um professor de educação física, uma ambulância”, relembra.
Rey Belo alerta que a busca por eliminar riscos com leis pode criar uma “falsa sensação de segurança” nos iniciantes, aumentando os perigos. Ele cita um “princípio ético muito forte” no montanhismo: “quem sai junto, volta junto”. No entanto, reconhece que “há situações em que permanecer pode significar colocar duas vidas em risco, e descer para buscar ajuda pode ser a única alternativa possível”.
Em sua visão, a montanha exige um “equilíbrio delicado de liberdade com responsabilidade”. “Sem responsabilidade, há imprudência, mas sem liberdade, não há montanhismo”, conclui. A velha máxima “se não sabe brincar, não desce pro play”, ou neste caso, “não suba pro cume”, parece ser o conselho mais prudente diante da complexidade da situação.